Trazer uma abordagem social e estrutural para o tema da saúde mental e aproximar a população desse assunto. Esse é o objetivo de um estudo lançado no início deste mês de agosto que pretende ser uma ferramenta de monitoramento contínuo da saúde mental dos brasileiros, intitulado Panorama da Saúde Mental.
A pesquisa inédita analisa os aspectos, hábitos e situações que impactam positiva e negativamente na saúde mental dos brasileiros. Para isso, os pesquisadores aplicaram um questionário usado internacionalmente em uma amostra representativa da sociedade brasileira de 2.248 pessoas acima de 16 anos, de todas as regiões do país.
Para a psicóloga Dra. Cristiane Barreto, influencer Urbnews e fundadora da Casulo Bem Estar e Desenvolvimento, a ideia por trás da divulgação desses dados é “apoiar pesquisas e iniciativas inovadoras que ajudam a repensar políticas públicas, além de alertar a população sobre a importância com os cuidados e prevenção da saúde mental”.
Dentre os dados mais relevantes, o documento aponta que 62% dos brasileiros não usam serviços de apoio à saúde mental e só 5% relatam fazer psicoterapia, mas 16% tomam psicoativos. Para Cristiane Barreto, isso é sintoma de uma busca por soluções de curto prazo, como os medicamentos.
“Percebe-se que há uma demanda urgente para esses atendimentos, mas talvez por ser ainda um “tabu” falar e cuidar da saúde mental e por termos uma característica atual de querer resolver nossas questões de uma forma mais rápida, as pessoas tenham deixado de procurar acompanhamento e estão buscando soluções mais rápidas”, avalia.
Segundo o Panorama, os mais jovens, estudantes, brancos, mulheres, com renda mais alta e maior escolaridade são os grupos que mais fazem terapia. “Acredito que precisamos ampliar as informações sobre os serviços de apoio à saúde mental”, reforça a psicóloga.
A vasta maioria (93%) da população não recebeu nenhum tipo de diagnóstico sobre saúde mental no Sistema Único de Saúde (SUS). As mulheres relataram ter recebido diagnósticos em uma frequência maior que os homens (8% vs 5%).
Hábitos e preocupações
Gênero, orientação sexual, renda, situação profissional, autoestima, relações familiares e prática de esportes foram alguns dos fatores analisados pela pesquisa, e que apresentaram maior impacto na saúde mental dos entrevistados. Da mesma maneira, os hábitos diários e comportamentais se sobressaem.
A maioria dos respondentes apresentam queixas relacionadas ao sono (60%) e se sentem cansados (68%). “De acordo com estudos recentes, a qualidade do sono dos brasileiros tem piorado. Em contrapartida, cada vez mais o papel do sono na qualidade de vida dos indivíduos tem ganhado destaque e entende-se que o sono reparador é aliado na proteção da saúde mental”, afirma o Panorama.
As respostas também indicaram um consumo mais acentuado de álcool e cigarro. Cerca de 15% dos brasileiros relataram consumir álcool 3 vezes ou mais nas últimas duas semanas anteriores ao questionário, enquanto aproximadamente 16% afirmaram ter consumido cigarro neste mesmo período. Por outro lado, 40% dos respondentes afirmam já ter sentido a necessidade de diminuir o consumo de bebidas alcoólicas ou de parar de beber.
A preocupação com a situação financeira apresenta uma forte associação com a saúde mental dos brasileiros. “Em um contexto nacional, no qual a taxa de desemprego ronda os 8%, o crescimento econômico em 2022 foi de apenas 2,9% e a expectativa de inflação é alta, chegando a 6%, é possível que esse contexto de incertezas econômicas afetem de forma generalizada o bem-estar da população”, aponta o Panorama.
Em números, 88% dos entrevistados relataram preocupações financeiras nas semanas anteriores ao questionário. As mulheres relataram preocupações financeiras com maior frequência do que os homens. Além disso, outros grupos que se destacaram foram: aqueles entre 25 e 34 anos, solteiros, separados e divorciados, bem como grávidas ou pais de crianças com até 17 anos.
Conclusões
O Panorama da Saúde Mental foi desenvolvido pelo Instituto Cactus, entidade filantrópica e de direitos humanos referência em prevenção e promoção de saúde mental no país, em parceria com a Atlas Intel, empresa de tecnologia especializada em inteligência de dados. A pesquisa completa pode ser acessada aqui.
O estudo vai resultar em uma série histórica, com resultados comparativos de segmentos específicos da população e poderá servir como referência de dados sobre saúde mental tanto para a sociedade como um todo, quanto especificamente para gestores públicos, acadêmicos e outros atores envolvidos com o tema.
“Falar e cuidar da prevenção e promoção de saúde mental no país é urgente e fundamental para que possamos minimizar os impactos já percebidos com o adoecimento psicológico da população”, conclui a psicóloga Cristiane Barreto.




