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Infâncias atípicas: a criança ‘inconveniente’ e ‘antipática’ que no fim era autista

O fim das inquietantes dúvidas. O começo de uma nova jornada para uma artesã que recebeu uma explicação para todas as dificuldades
Ana Karynne e sua filha, Mariana. Ambas possuem o Transtorno do Espectro Autista. Foto: Arquivo Pessoal.

No mês passado, a atriz Letícia Sabatella, aos 52 anos, revelou durante participação no podcast ‘Papagaio Falante’, ser uma pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O diagnóstico tardio da artista não é um caso isolado, no mesmo caminho percorrem histórias semelhantes. 

Inconveniente, grosseira, antipática. Esses são alguns dos rótulos que era taxada durante a sua infância. Ela, que sempre teve uma socialização diferente, não entendia como as pessoas se davam tão bem entre si. Vir de uma família que ser inábil socialmente não era tão ‘esquisito’, talvez tenha sido o disfarce perfeito para o Transtorno do Espectro Autista (TEA). 

“Eu tinha a sensação de que todo mundo ao nascer havia recebido um manual de instruções. De como se comportar com as outras pessoas e eu: ‘não, meu manual não tinha chegado’. 

O enredo acima é da artesã Ana Karynne Magalhães. A mulher teve uma infância atípica. E foi somente a partir da reprodução de comportamentos mais ou menos semelhantes da sua filha com 5 anos, que a empreendedora foi diagnosticada com autismo.

“Quando a minha filha nasceu ficou muito nítido que ela não conseguia socializar com as outras crianças. Ela tinha muita dificuldade na escola, ela tinha muito medo de coisas que as outras crianças não tinham. Ela tinha dificuldade de falar com outras pessoas que não fosse eu. Então a gente começou a procurar”, conta. 

Karynne recorda que toda dificuldade que sua filha manifestava, ela ligava para a avó da menina relatando as situações. “Na época eu morava fora do estado (na Bahia), a minha mãe dizia ‘mas você era assim, seu pai era assim, é dela, é da família’. 

A psicóloga clínica Cristiane Barreto, que também é colunista da UrbNews, diz que O TEA (transtorno do espectro autista) apresenta vários graus, e sua identificação pode passar despercebida se não for dada a devida atenção. 

“Por isso algumas pessoas passam anos se sentindo diferentes, deslocadas, lutando contra algo que não sabem o que é. Isso se deve à falta de acesso às informações, ou até mesmo à resistência emocional de alguns pais  pelo próprio estigma que ainda se carrega na sociedade”, afirma.

Ao retornar para Fortaleza, procurou ajuda para sua filha. Na primeira consulta, a doutora mencionou sobre um grupo terapêutico de autistas adultos que ela conduzia. A médica pediu que elas fossem. “E eu lembro que eu falei pra ela: ‘mas Mariana é uma criança, ela não vai se beneficiar desse grupo’. Ela disse: ‘não é pra ela, é pra você’”.

A médica suspeitava que a mãe também era autista. “Eu comecei o processo de avaliação com eles, eu já me identificava com as características mas eu não tinha certeza. E em pouco tempo a gente finalizou a avaliação e saiu o meu diagnóstico de autismo, nível 1 de suporte”. 

“Mas aparentemente eu tenho outras excepcionalidades, existe a probabilidade de eu também ter TDAH e altas habilidades em superdotação, mas essas avaliações eu nunca conclui”, emenda. 

A explicação para todas as dificuldades

Karynne diz que embora nunca teve dificuldades em fazer amigos, sempre teve uma dificuldade “muito grande” em manter amizades, interação social. “Também sempre tive muita dificuldade com metáforas, com piadas, sempre levei tudo muito a sério, como chamam muito a ferro e fogo. E isso foi trazendo vários problemas”, conta.

Ela também não entendia nuances de situações sociais mais complexas, precisava que as pessoas explicassem. “E eu falava muito o que eu pensava, tudo que eu pensava eu falava, eu não tinha um filtro social. Eu não tinha percepção de inadequação em relação a você pensar tudo que você fala”. 

“Foram várias questões que foram me conduzindo, então eu não tive muita dificuldade quando eu recebi o diagnóstico. Porque foi uma explicação para todas as dificuldades que eu tive de me ambientar”, confessa. 

Cristiane explica que a ausência do diagnóstico acarreta várias dificuldades. “Sem o diagnóstico as pessoas vivem com algumas dificuldades, podendo acumular prejuízos sociais e acadêmicos que podem acarretar no desenvolvimento de outros transtornos”.

Ela passou a entender suas dificuldades. “Eu parei de aceitar os rótulos que me deram a vida inteira que eu era inconveniente, grosseira, antipática, de que eu não queria interagir com as pessoas”. 

Segundo Ana Karynne, ela fica cansada muito rápido em grupos sociais. Precisa de tempo para descansar, se aquietar. 

“Eu lembro que meu marido queria ter uma vida mais intensa, passar o dia na casa dos amigos no final de semana e eu chegava nesses eventos e com 1h que eu tava lá com toda a interação social, a estimulação sensorial do ambiente eu ficava exausta, e eu queria ir embora, passei a entender melhor o que acontecia, a forma como eu funcionava. A forma como o meu cérebro reagia e interpretava os estímulos”. 

Outra coisa que o diagnóstico do autismo veio a calhar foi que ela passou a respeitar seus limites. “Eu não me forço mais a determinadas interações e situações que eu sei que vão me fazer mal depois. E quando precisa fazer essas interações ela faz de forma adaptada.

“Eu explico ‘olha eu vou ficar aqui mas eu vou precisar de um tempo depois sozinha, num lugar com pouca luz, num lugar silencioso, calmo, pra me regular, quando eu tiver bem sensorial e emocionalmente, quando eu conseguir interagir novamente, eu retorno”. 

O diagnóstico é valioso, mesmo na fase adulta

Após essas séries de dificuldades, Karynne agora é dona do próprio negócio. E está finalmente conseguindo fazer uma graduação. “Eu abandonei vários cursos porque eu não conseguia lidar com a interação social da universidade. Nunca tive dificuldade de passar no vestibular, mas sempre tive dificuldade terrível de me manter dentro da universidade. Então eu tenho uma percepção muito melhor das minhas capacidades e das minhas dificuldades”, finaliza.

“Após o diagnóstico a pessoa fecha um ciclo de incompreensão, sendo possível identificar sua forma de lidar com várias situações em seu cotidiano. E o mais importante, é entender que só com o diagnóstico definido se pode buscar o profissional e a forma de acompanhamento adequado para cada indivíduo, levando à qualidade de vida da pessoa”, finaliza a psicóloga Cristiane.

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