Entender o papel do jornalismo e suas diferentes áreas de atuação é algo que percorreu bastante a mente dos teóricos que estudam a comunicação e dos que atuam rotineiramente na profissão. No cinema, filmes cujos profissionais da área assumem o protagonismo não é algo novo, haja vista os recentes e aclamados “The Post” (2017) e “Spotlight” (2015).
Contudo, “Guerra Civil”, novo filme da produtora A24, dos recentes “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” (2022) e “Zona de Interesse” (2023), talvez seja um dos que melhor abordam as problemáticas da prática e da ética do jornalismo na sua maneira mais crua, e no seu pior cenário: um campo de batalha onde o principal aliado é a informação.
O longa-metragem é dirigido por Alex Garland, conhecido por trabalhos na ficção-científica, como “Ex Machina” (2014) e “Aniquilação” (2018), e estrelado pelos atores veteranos Kirsten Dunst, Stephen Henderson e nosso brasileiro Wagner Moura, o grande destaque do filme. Juntos, este trio principal de jornalistas está em busca de uma pauta ousada: entrevistar o presidente dos Estados Unidos em Washington, no limiar de uma guerra civil que arrastou quase todo país para o caos político e econômico.
O ponto de partida da trama recai sobre o olhar fotojornalístico de Lee (Dunst). Muito dos acontecimentos é refletido no público através das lentes de sua câmera, que quase nunca falha em capturar os melhores momentos de um conflito, se é que estes existam. Eis que entra a sagacidade da direção em mostrar a dualidade psicológica dos profissionais que, acima de tudo, precisam deixar seus sentimentos individuais de lado em prol da objetividade e da imparcialidade jornalística, mesmo em uma situação degradante e anti-humanitária.

Lee está conflituosa com a ética do seu trabalho e, mesmo estando no ramo há tanto tempo, tendo coberto tantas batalhas e ganhado reconhecimento por isso, ainda não está certa se sua atuação possui a eficácia esperada no conflito. Sua contraparte Joe (Moura), um redator fanfarrão, acredita que eles atuam da melhor forma possível com as armas que têm, sejam elas uma máquina fotográfica, um gravador de voz ou um bloco de notas.
A ideia de entrevistar o líder de uma das maiores nações do planeta surge como a última parada de um longo trabalho de apuração e cobertura da guerra em tempo real, e em meio a isso, surge uma nova aliada. A aspirante a fotojornalista Jesse (Cailee Spaeny) surge com a função narrativa de ser o fio condutor do público por este cenário estranhamente próximo e ao mesmo tempo devastador, a medida que se enfia, a contragosto de Lee, na viagem pelos EUA até a Casa Branca.
Grande parte da trama do filme é contada através do clássico gênero “road trip”, em que os personagens fazem uma viagem cruzando o país e ao longo do trajeto vão conhecendo novos lugares, fazem aliados, inimigos e vivem aventuras. Neste caso, o limiar entre os que estão ao seu lado, ou não, pode significar vida ou morte, algo que os protagonistas esperam escapar pela tangente por possuir os dizeres de “Imprensa” escrito no carro.
O conflito de Lee com sua persona jornalística e imparcial entra em conflito com a chegada de Jesse. Muito inspirada no seu trabalho, a jovem está em sua primeira cobertura e vai precisar de muito aprendizado para lidar com os horrores de uma guerra, se quiser ser bem sucedida no ramo. Neste ponto, a cinematografia brilha em realçar a dualidade entre o novo e o velho, e como ambos precisam enfrentar os mesmos dilemas antes de traçar o seu caminho juntos.
A câmera de Garland está sempre em movimento, junto dos seus personagens. Nunca descansando, o olhar atento das lentes percorre toda a imensidão do rastro de destruição deixado por batalhas e soldados que já, um dia, marcharam por aquelas terras. Junto da ambientação, também está sempre em foco o olhar dos personagens acerca de toda essa situação. Os planos sempre estão na altura dos seus olhos e demonstram com eficácia o fascínio de Jessie, a preocupação de Sammy (Henderson), a excitação de Joe e a tensão de Lee.
Ao mesmo tempo que a direção dá o real peso que o cenário necessita para a ambientação, ela tira o melhor dos seus atores nas diferentes “paradas” da viagem. A cada ponto de pausa, seja para abastecer ou dormir um pouco, os personagens demonstram seus conflitos e dúvidas sobre aquele contexto, se vale a pena ainda arriscar tudo por uma história ou deixar aquilo para trás e ser um ignorante. Todos sabem que o espírito jornalístico impede que sigam o outro caminho.
Sendo o mais experiente, Sammy se preocupa com o estado de Jesse em enfrentar aquele turbilhão de violência sendo ainda tão jovem. Ele também serve como o mentor de Lee e a aconselha que, às vezes, está tudo bem abaixar a guarda, não importa o que a vida já tenha colocado como provações no meio do trajeto. Wagner Moura dá um brilho na atuação como Joe que, do seu jeito, se preocupa com seus companheiros de viagem e pode arriscar tudo para que este trabalho não seja realizado em vão.
Aliada à cinematografia, está o inestimável trabalho de som. Experienciar este filme nos cinemas é quase obrigatório, pois tanto a trilha sonora é suave, mas sempre presente nos momentos chave, como a ambientação sonora proporcionada pelos sons de carros, aviões, helicópteros, armas, tiros e explosões garante uma imersão assustadora e que põe o público no campo de batalha, junto dos personagens.
O roteiro, porém, tende às vezes a dar pausas cansativas na viagem dos protagonistas, mas retoma a atenção do espectador com os temas abordados em cada novo olhar deles sobre aquele conflito. O perigo aumenta a cada quilômetro que se aproximam de Washington, e com isso, a trama dá viradas inteligentes e subverte nossa expectativa ao entregar ótimas cenas de ação, aparições especiais, e momentos cheios de emoção que podem servir até para derramar uma ou duas lágrimas.

Reconhecer o trabalho do jornalismo em uma cobertura de guerra é analisar o trabalho desta profissão também no âmbito mundano. O cotidiano da atuação requer que seus profissionais assumam uma persona, por vezes, diferente da sua forma pessoal, mas em que momento esta deixa de assumir um papel secundário e passa a integrar tanto a sua vida que se torna impossível de distinguir o que é ou não real dentro de si?
E para além do contraposto ambíguo do fazer jornalístico, a ética presente nestas coberturas deve ser sempre revisada e posto a prova, sempre que possível. Se o jornalismo possui alguma arma para a sua defesa, esta pode vir a ser a lente de uma câmera, que, a depender da exposição, da abertura ou do detalhe que deseja focar, pode contar uma história inteira a partir de um clique. Isto pode ser assustador, ou reconfortante, para aqueles que buscam na objetividade da informação, uma maneira de se falar a verdade ou ampliar o sentimento de justiça.
“Guerra Civil”, portanto, menos fala sobre a guerra em si, mas sim sobre as complexidades pessoais e profissionais de quem enxerga o contexto de forma a se distanciar daquilo, sem nunca tirar os pés do terreno que os prende. O jornalismo, em sua essência, busca a verdade, independente de onde ela esteja. Sua análise pode levar a maravilhosas descobertas, ou a terríveis consequências. Não cabe a quem o busca essa resposta, é preciso fazer para saber.
Em uma situação tão próxima à nossa realidade, é preciso, portanto, reavaliar o papel midiático que é proposto em um momento tão degradante para a humanidade. Se o cinema como arte reflete o que acontece dentro da sua época, este longa-metragem chama o público a observar com mais atenção as reais guerras que ocorrem, e se perguntar se uma história real vale a pena ser contada, ou apenas vivida por quem está presente e confia nos que tem o poder de dominar os rumos de uma nação.
“Guerra Civil” estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (18).




