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Mais da metade da geração Z no setor público ocupa cargos sem estabilidade

A falta de concursos, perdas salariais em carreiras públicas e oportunidades no mercado privado afastam jovens do setor, segundo especialistas
Jovens também trabalham em funções que exigem menos experiência e grau de instrução. Foto: Pixabay

Mais da metade, ou 51%, dos profissionais da geração Z no setor público federal ocupam cargos sem estabilidade, como no regime temporário ou no programa Mais Médicos. A falta de concursos, perdas salariais em carreiras públicas e oportunidades no mercado privado afastam jovens do setor, segundo especialistas.

Nascidos entre 1995 e 2010 ocupam cargos que tiveram seleções recentes e com maior número de oportunidades, como dos temporários do IBGE, cujo processo seletivo ofertou quase 207 mil vagas em 2022. Jovens também trabalham em funções que exigem menos experiência e grau de instrução, como o técnico do seguro social no INSS.

Profissionais residentes na área de saúde correspondem a 25% da geração Z no setor público federal. A média de idade é menor por reunirem recém-formados, uma vez que a residência é uma etapa após a graduação em saúde.

Os dados são de fevereiro desde ano, coletados no painel estatístico de pessoal do governo federal.
Esta é a terceira reportagem da série Servidores da Geração Z, em parceria com o Instituto República.org, que aborda a presença de profissionais nascidos entre 1995 e 2010 no setor público.

Concurseiros costumam ser jovens, segundo Gabriela Lotta, professora de administração pública da FGV. Em geral, eles podem dedicar mais tempo ao estudo por não terem dependentes e ainda contarem com apoio familiar.

No entanto, com a redução de concursos, caiu a reposição de servidores e a entrada da geração Z no setor público. A professora da FGV diz que carreiras como a Polícia Federal e a PRF (Polícia Rodoviária Federal) têm maior presença de jovens porque tiveram certames recentes.

Os últimos foram em 2021, cada um com 1.500 vagas. “Nos cargos temporários, que não são estruturados, provavelmente uma parte dessas pessoas já está estudando para o próximo concurso, para tentar ingressar numa carreira melhor”, diz Gabriela.

É o caso de Breno Siqueira, 27, analista censitário temporário do IBGE. Seu contrato é de cinco anos, mas ele já se prepara para outros certames -inclusive o CNU (Concurso Nacional Unificado). Para ele, ainda que o contrato seja temporário, o cargo tem mais estabilidade do que no setor privado. No IBGE, entre os contratados com menos de 30 anos, a média de idade é de 25.

Natural de Sergipe, Breno buscou concursos para continuar vivendo no Rio, onde estudou jornalismo na UFF (Universidade Federal Fluminense). Hoje, ele atua na área de assessoria de imprensa do IBGE. “O concurso é mais meritocrático, não tem todo aquele processo de entrevista”, afirma. “Eu já tinha essa admiração pelo instituto e até um desejo de trabalhar aqui. A gente nota que está fazendo um serviço muito importante.”

O policial rodoviário federal Leandro Henrique, 29, adotou uma estratégia parecida. Ele ingressou no Exército como oficial temporário aos 19 anos e, enquanto estava na força, estudava para concursos na área de segurança. “A PRF foi a que mais me interessou porque as apreensões de drogas estavam muito em alta. Nas redes sociais, eles sempre divulgaram isso e chamava muita atenção”, diz Leandro.

No órgão, a média de idade entre os contratados jovens (de até 30 anos) é de 28 anos. Ainda que haja um alto número de pessoas da geração Z na PRF, os mais novos são o segundo menor grupo etário entre os oficiais, atrás apenas daqueles com mais de 60.

Para Leandro, que já havia estagiado em órgãos públicos na adolescência, uma das vantagens de estar na PRF é a rotina flexível. “Descobri que esse trabalho monótono, de ficar atrás do computador, não é para mim. Sempre quis algo que fosse dinâmico, e nosso serviço aqui é assim.”

A geração Z também se atrai pelo trabalho vocacionado, característica presente em funções públicas. Por outro lado, as perdas salariais reduziram o interesse em trabalhar no setor, segundo Gabriela Lotta.
Durante a pandemia, a renda média de profissionais públicos caiu mais do que a de trabalhadores de empresas privadas, segundo dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) de 2022.

Além disso, funcionários da iniciativa privada podem acumular carreiras, o que eleva a renda. Isso é mais restrito entre servidores. “Tudo depende também do mercado, porque, se ele está aquecido e as pessoas conseguem exercer sua vocação e ter flexibilidade, a escolha fica mais fácil. No momento que há um mercado mais estagnado e abre concurso, o concurso vira a melhor opção”, diz Gabriela.

Ainda que jovens contem com o apoio da família para se dedicar exclusivamente aos concursos, eles acumulam menos tempo de estudo e de experiência profissional. Isso pode ser uma desvantagem, sobretudo em cargos mais concorridos, de acordo com Marcela Carvalho, pesquisadora do Observatório de Lideranças da Gestão Pública do Insper e coordenadora da Motriz, organização dedicada à entrega de serviços no Poder Executivo.

O edital do CNU (Concurso Nacional Unificado) estabelece prova de títulos em algumas das carreiras, como de especialista em políticas públicas e gestão governamental, cujo salário inicial é de R$ 20.924. O candidato ganha até três pontos por ter pós-graduação e um ponto por ano de experiência de trabalho. O limite da prova de títulos é de até dez pontos.

Marcela avalia positivamente a estratégia adotada pelo CNU para atrair a nova geração, tanto na divulgação quanto na organização logística. Candidatos entre 15 e 34 são maioria, ou 59%, no certame, o que mostra os resultados positivos do plano. “A comunicação está para o jovem, tanto visual quanto a linguagem acessível”, afirma. “A facilidade de acesso ao local da prova também, porque falamos de gerações mais novas que, no geral, têm menos poder de compra para investir no deslocamento.”

No caso de Daíse Sousa, técnica ambiental do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), a distância não a impediu de ir do Tocantins, onde cresceu, a Altamira, no Pará, para trabalhar em uma unidade de conservação. Formada em engenharia ambiental e técnica em gestão do meio ambiente, Daíse sempre quis trabalhar em órgãos públicos da área.


Como jovens têm cada vez menos filhos ou outros dependentes, eles ficam mais dispostos a aceitar posições temporárias ou a trabalhar em lugares mais remotos, segundo especialistas. “Cheguei a ter receio de vir, porque é bem diferente da minha realidade, mas decidi encarar porque não poderia perder essa oportunidade”, afirma. “Esses órgãos têm muita importância para o país e sempre tive vontade de trabalhar aqui.”

*Com informações da Folhapress.

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