“Faculdade não vale a pena?”; “faculdade não dá futuro, edit”; “faculdade não faz ganhar dinheiro”. Essas são algumas das frases e perguntas populares no TikTok. Ao clicar na primeira delas, a inteligência artificial do aplicativo responde:
“A faculdade é frequentemente criticada por não garantir retorno financeiro ou sucesso profissional. Muitos defendem que habilidades práticas e alternativas, como cursos técnicos ou o autodidatismo, são mais eficazes para alcançar objetivos no mercado atual.”
A IA ainda lista os “motivos para não fazer faculdade”. Entre eles estão: valorização de habilidades práticas pelo mercado, altos custos do ensino superior, baixa remuneração, alternativas mais lucrativas e o uso da internet como principal ferramenta para adquirir conhecimentos valorizados.
O fato é que o mundo mudou e o mercado de trabalho também. E, especialmente na internet, há uma onda de desinteresse pelo ensino superior, em que influenciadores incentivam seus seguidores a não ingressarem na universidade pelos motivos citados acima.
Paralelamente, observa-se uma tendência de queda nas inscrições para o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) nos últimos anos, após um período de crescimento escancarado entre os anos de 2013 e 2016.
Em 2024, 4.325.960 candidatos tiveram suas inscrições confirmadas. Comparando com os dados de 2014, dez anos antes, esse número representa menos da metade do registrado naquele ano (8.722.290).
Já neste ano, o total de inscritos chegou a aproximadamente 5,5 milhões – valor que ainda pode variar, já que muitos dependem da confirmação do pagamento da taxa de inscrição, que foi adiada para melhor adesão dos participantes. É importante destacar que esse número, mesmo preliminar, já supera o registrado em 2024.
Neste ano, as provas serão aplicadas nos dias 9 e 16 de novembro, com exceção de Belém, Ananindeua e Marituba (PA), onde ocorrerão nos dias 30 de novembro e 7 de dezembro. Os resultados estão previstos para o dia 16 de janeiro.
Na sala de aula e nas políticas públicas
Nas escolas, o desinteresse dos jovens pelo ensino superior é percebido por educadores. Para combater esse fenômeno, instituições têm adotado ações de incentivo à entrada na universidade.
“A gente tem procurado criar uma cultura de aprovações, uma cultura de estímulo à entrada no ensino superior. Mas, sim, a gente percebe que, de uns tempos para cá, esse interesse realmente tem diminuido”, relata João Paulo da Guia, diretor da EEFM Constança Távora, no bairro Cajazeiras, em Fortaleza.
O diretor também chama atenção para uma mudança de prioridade entre os estudantes: “O aluno tem se preocupado com aquilo que ele sempre se preocupou, mas que havia desviado a atenção dele que é a questão da sobrevivência do trabalho. O trabalho tem sido sim uma questão que vem antes do estudo, às vezes por uma questão de sobrevivência, às vezes por uma questão de emancipação mesmo”.
Sobre a desvalorização do ensino superior, ele afirma: “As universidades são colocadas, muitas vezes, como inimigas públicas por alguns YouTubers. Então a gente tem esse mito criado de descredibilização que contribui, na cabeça do jovem, para que ele se afaste desse caminho, para que ele não trilhe um caminho que busque a emancipação pela universidade, pela ciência. Isso para além do mercado de trabalho. Uma questão de emancipação intelectual mesmo”.
E finaliza: “Quando vejo um, dois, três ou quatro alunos indo para um universidade pública ou conseguindo bolsas de 50%, um Prouni de 100%… Todos eles são uma vitória.”
Diante desse cenário, o Ministério da Educação tem promovido ações como o programa Pé-de-Meia, que oferece um bônus de R$ 200 para estudantes do último ano do ensino médio que realizarem as duas provas do ENEM. Além disso, todos os beneficiários do programa são isentos da taxa de inscrição do exame.
Em 2025, o ENEM voltou a certificar a conclusão do ensino médio – medida que estava suspensa desde 2017. Agora, o exame pode emitir certificados de conclusão e declarações parciais de proficiência.
No mercado de trabalho
A psicóloga Raquel Coelho comenta que, no mercado de trabalho, o impacto da ausência do ensino superior pode ser sentido no longo prazo. “A dificuldade enfrentada pelos jovens de baixa renda para acessar e se manter no ensino superior e a desvalorização ou banalização do título de graduação refletidas na falta de perspectiva pós formatura e baixos salários pode desestimular uma parcela dos jovens a ver a graduação como opção imediata de inserção laboral.”
“A questão é que a médio e longo prazo a carreira dessas jovens se estanca e os mantém em uma situação econômica que dificilmente é superada, já que aqueles que têm ensino superior são os que, como tendência, socialmente ascendem e ocupam os melhores cargos e apresentam melhores condições socioeconômicas no futuro”, afirma.
Ela conclui afirmando que a busca por soluções mais fáceis e rápidas têm levado a decisão por não ingressar no ensino superior: “Vivemos em uma sociedade imediatista e extremamente individualista, que incentiva a busca de soluções fáceis e esses modos de subjetivação tem influenciado na desestimulação dos jovens em acreditar que o ensino superior é um caminho de inserção interessante e partem para outras estratégias como o empreendedorismo e ensino técnico.”



