Cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) descobriram o mecanismo biológico que explica como a prática regular de exercícios físicos impede que dores musculares agudas se transformem em crônicas. O estudo foi publicado em 21 de abril de 2025 na revista científica PLOS ONE. A pesquisa utilizou camundongos para demonstrar como a atividade física modifica o comportamento de células do sistema imunológico.
Os exercícios físicos conseguem “reprogramar” os macrófagos, células de defesa diretamente envolvidas na dor muscular inflamatória e em sua persistência. Nos testes realizados, a atividade física tornou essas células menos inflamatórias, bloqueando o processo que leva à cronificação da dor.
A equipe de pesquisadores observou que a atividade física regular ativa mecanismos moleculares que interrompem o processo inflamatório responsável pela transição da dor aguda para crônica. Os experimentos foram conduzidos na Unicamp durante os últimos meses, com camundongos submetidos a sessões de natação por quatro semanas, seguidas de um estímulo inflamatório aplicado diretamente no músculo.
A professora Maria Cláudia Gonçalves de Oliveira, coordenadora do Laboratório de Estudos em Dor e Inflamação (Labedi) da Unicamp, liderou o estudo. Sua equipe verificou que os animais que praticaram natação não desenvolveram dores crônicas, ao contrário dos sedentários.
“A gente conseguiu caracterizar uma proteína que fica na membrana celular desse macrófago e que ativa uma via de sinalização, que contribui para que aconteça a transição da fase aguda em fase crônica da dor muscular. […] Vimos que o exercício feito previamente ao estímulo inflamatório, como medida de prevenção, ele de alguma forma previne essa via [de inflamação] de ser ativada”, explica Oliveira.
A investigação, realizada inteiramente nos laboratórios da Unicamp, identificou dois protagonistas moleculares principais nesse processo: o receptor P2X4, presente nas células de defesa, que funciona como desencadeador da dor crônica muscular; e a proteína PPAR-Gama, que atua como um “freio” nesse processo e é ativada durante a prática de exercícios físicos.
“Percebemos que, de alguma forma, se atuarmos sobre o receptor P2X4, talvez a gente consiga contribuir com a indústria farmacêutica no desenvolvimento de medicamentos mais específicos para essa proteína em si ou usar o PPAR-Gama como coadjuvante à prática regular de exercício físico para minimizar a dor crônica”, afirma Oliveira.
Os cientistas ainda não determinaram se o exercício pode ser eficaz como tratamento após a instalação da dor crônica. Esta questão será abordada nas próximas etapas da investigação. A equipe também pretende estudar mais detalhadamente como as vias celulares identificadas interagem entre si.
A pesquisadora ressalta a importância de prevenir a cronificação da dor: “Sentir dor é importante, porque a dor é um sinal que o corpo nos emite para que a gente possa se proteger de lesões. Mas uma vez que essa dor se torna crônica, ela não é mais um sinal de proteção, ela é uma doença. Então prevenir que essa dor se torne crônica é fundamental”.
Oliveira também destaca o potencial impacto desses achados na saúde pública: “Hoje a gente já sabe os benefícios para o sistema cognitivo, psicológico, para sono, para humor, ansiedade, depressão, mas a gente não faz exercício com tanta frequência com o objetivo de reduzir ou prevenir dores. O grande problema é que a população vai envelhecendo, vai ficando cada vez mais predisposta a ter dor e ter dor diminui a qualidade de vida. Então, se a gente conseguir mobilizar as pessoas a fazerem atividade física também pensando na dor, vai ser super importante”.
*Texto redigido com auxílio de ferramenta de Inteligência Artificial




