Descobrir uma história, imaginar cenários, se reconhecer em personagens e criar novos mundos: a leitura pode ser uma grande aliada da infância quando apresentada de forma leve e afetiva. Nos primeiros anos escolares, o contato com livros vai além do processo de alfabetização, ele contribui para o desenvolvimento da criatividade, da empatia e da capacidade de interpretação.
Dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgados pelo Senado Federal, reforçam a importância de incentivar o contato com livros desde cedo: atualmente, 47% da população brasileira leu ao menos parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento, o que evidencia o papel estratégico da infância na formação de novos leitores.
Para que o hábito se desenvolva de forma saudável, educadores defendem que a leitura não seja tratada como obrigação ou punição, mas como experiência de descoberta.
A professora Thainá Galvão explica que o incentivo começa dentro de casa e que o exemplo familiar tem papel decisivo nesse processo.
“No que diz respeito ao incentivo do hábito de leitura, quando a criança cresce em um ambiente de família leitora, em que ler já é um hábito, esse estímulo vem de forma mais leve. A criança vê essa influência dentro de casa, vê os pais tirando um momento para ler, para trocar ideias sobre livros, e isso se torna um momento de construção de laços afetivos”, afirma.
Ela ressalta que é fundamental respeitar o tempo de cada criança: “É preciso compreender que o hábito da leitura deve acontecer espontaneamente. Claro que deve haver a mediação dos pais e dos educadores, mas cada aluno tem seu tempo de aquisição. Cabe à família e à escola tornar esse momento mágico, tirando o viés da obrigação e transformando em uma viagem por novos horizontes”.
Muito além da alfabetização
Nos primeiros anos escolares, a leitura cumpre uma função ampla. Além de apoiar o aprendizado da escrita e da interpretação, ela estimula habilidades cognitivas e emocionais essenciais.
“O livro proporciona conhecimento de mundo e auxilia tanto na escrita quanto na ampliação do vocabulário e na organização do texto. Formamos uma criança mais crítica, mais questionadora, porque ela é exposta a situações que provocam reflexão. A leitura estimula a memória, raciocínio, criatividade e imaginação”, diz a especialista.
Thainá também destaca práticas que incentivam autonomia e pensamento criativo. “Eu gosto de trabalhar com a recriação de finais de história. Quando o final não satisfaz, proponho que os alunos criem outro. Isso estimula a criatividade e faz com que pensem em novas possibilidades dentro do universo da narrativa”, afirma.
Segundo o levantamento citado pelo Senado, fortalecer a cultura da leitura é uma das estratégias fundamentais para ampliar o desenvolvimento educacional no país, justamente porque impacta compreensão, pensamento crítico e capacidade de argumentação.
Estratégias práticas no cotidiano
Para tornar a leitura parte da rotina infantil, a professora aponta caminhos tanto na escola, quanto em casa. “No ambiente escolar, temos um leque de possibilidades. Podemos criar clubes de leitura, projetos como ‘Aluno Leitor’, premiar quem mais utiliza a biblioteca. Isso estimula e valoriza a leitura. Como muitas escolas funcionam em tempo integral, é possível incorporar esse hábito à rotina”, explica.
No ambiente familiar, a organização e os espaços em casa também fazem diferença. “Ter um cantinho de leitura em casa ajuda a criança a entender que aquele é um momento dedicado à atividade leitora. A contação de histórias também é muito importante. Podemos trabalhar temas do cotidiano, como sustentabilidade, por meio de histórias ou pequenas encenações. Isso torna o processo mais lúdico”, diz.
Thainá defende que pais e professores respeitem as fases das crianças, não forçar um hábito é um caminho. “A criança começa com leituras mais simples, textos curtos, quadrinhos. Eu gosto de trabalhar clássicos em formato de quadrinhos para desmistificar a ideia de que são difíceis. Trazer o clássico para a realidade do aluno aproxima esse universo”, conclui.




