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Fortaleza

Marco Zero na Barra do Ceará, local onde tudo começou, preserva raízes históricas da Capital

Ponto localizado no bairro mais antigo da cidade reúne memória da ocupação colonial, cultura pesqueira e transformações urbanas ao longo dos séculos
Por Sandra Costa
Atualizado há 2 semanas
Tempo de leitura: 10 mins
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Vista aérea do Marco Zero de Fortaleza, na Barra do Ceará. Foto: Luiz Davi Pereira/Domum Video

O Marco Zero de Fortaleza está localizado na Barra do Ceará, no lugar onde o Rio Ceará encontra o mar, simbolizando o início do povoamento da cidade com a fundação do Fortim de Santiago em 1604.

Recentemente reconhecido pela Câmara de Fortaleza, o Marco Zero na Barra do Ceará assinala o ponto onde Martim Soares Moreno e Pero Coelho de Souza estabeleceram a primeira construção, marcando o nascimento da cidade. É um local histórico de grande importância cultural, com um monumento que preserva a memória da fundação da capital cearense.

A disputa sobre o marco inicial da cidade envolve diferentes versões. A narrativa mais difundida aponta o surgimento de Fortaleza a partir do Forte Schoonenborch, construído às margens do riacho Pajeú, no Centro. No entanto, outra corrente histórica sustenta que o início da ocupação ocorreu na Barra do Ceará, nas proximidades do antigo Forte de São Tiago, por volta de 1604.

Forte de São Tiago da Barra do Ceará

Forte de São Tiago na Barra do Ceará. Foto: Gabriel Carvalho/Urbnews

O Forte de São Tiago (ou Fortim de São Tiago da Nova Lisboa) foi a primeira fortificação construída no Ceará, erguida entre 1603-1604 pelo capitão Pero Coelho de Souza na foz do Rio Ceará, no atual bairro Barra do Ceará. Localizado na margem direita, marcava o início da colonização portuguesa.

Território em disputa histórica, o Marco Zero foi reconhecido apenas recentemente pela Câmara Municipal de Fortaleza como o local onde a cidade ‘começou’. Assim diz a historiadora e professora de ciências humanas, Victória Falcão: “O Marco Zero simboliza esse início da ocupação, da formação de Fortaleza. A gente teve aqui a chegada e a dominação dos portugueses. E isso simboliza várias questões de conflito e de um processo histórico, realmente, com a população indígena que já estava nesse território. Foi esse primeiro contato que gerou a formação da nossa cidade como um todo”, afirma.

A primeira estrutura foi construída em taipa e madeira para proteger colonos de ataques indígenas e de estrangeiros franceses e holandeses. Hoje, é considerado o ‘marco zero’ da cidade, embora a colônia inicial não tenha tido sucesso, levando ao abandono e posterior reocupação.

Tendo sido posteriormente esquecida e abandonada por Pero Coelho em 1607, o forte foi retomado por Martim Soares Moreno, que ergueu o Fortim de São Sebastião no mesmo local em 20 de janeiro 1612.

Mais uma vez sido menosprezado, anos se passaram até que a primeira expedição holandesa desembarcou no local em 1637, ocupando o já quase abandonado forte de São Sebastião. A ocupação colonial teve motivações estratégicas, especialmente diante das disputas territoriais envolvendo franceses e holandeses no litoral nordestino.

À esta época, a presença da Companhia das Índias Ocidentais consolidou o domínio holandês na região, marcando um período de conflitos e transformações no território. Eles permaneceram por sete anos explorando sal e âmbar gris, até que seus integrantes foram dizimados pelos índios.

Quando os holandeses estiveram no Ceará, estes fizeram mapas que mostram como era o forte, as construções e a geografia ao seu redor.

Quando ainda estava em terras cearenses, o Capitão holandês Matias Beck ergueu na colina Marajaitiba, às margens do riacho Pajeú, o Forte de Shoonenborch. Em 1654, ele e seus homens deixam a região. Foi somente em 1726 que os portugueses retomam a colonização no Ceará, e mudam o nome do forte para Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção e daí, em 13 de abril, nasce a Vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção.

O monumento do Forte de São Tiago, hoje atualizado, conta com três representações em sua estrutura: “Nele, vão estar representados Jesus Cristo, o São Tiago e a Nossa Senhora da Assunção, que é a atual padroeira da cidade”, diz Victória.

Barra do Ceará: bairro berço de Fortaleza

Visão aérea do encontro do Rio Ceará com o mar. Foto: Luiz Davi Pereira/Domum Video

Apesar das controvérsias, a Barra do Ceará é considerada por muitos historiadores como o verdadeiro berço de Fortaleza. O bairro carrega as tradições da capital cearense em suas ruas e paisagens. Com cerca de 63 mil habitantes, segundo o Censo de 2022, o bairro se destaca não apenas pela densidade populacional, mas pela relevância histórica, cultural e simbólica para o Estado.

A região, localizada às margens do Rio Ceará, já era frequentada por povos indígenas antes da chegada dos colonizadores europeus. De acordo com estudiosos, essas comunidades utilizavam o território como rota de deslocamento e espaço de subsistência, sobretudo ligado à pesca e à coleta de recursos naturais.

Ao longo do século XIX, a Barra do Ceará passou a abrigar colônias de pescadores, que moldaram a identidade local. A combinação entre rio, mar e manguezais favoreceu a pesca artesanal e a mariscagem, práticas que permanecem até hoje como parte da cultura e da economia do bairro.

Esse perfil foi reforçado com a chegada de migrantes vindos do interior do Ceará, especialmente durante períodos de seca, entre o fim do século XIX e início do século XX. A região tornou-se uma das mais populosas da cidade, embora historicamente tenha recebido pouca atenção do poder público.

Somente a partir da década de 1980, com projetos de requalificação urbana como o Polo de Lazer da Barra e o Vila do Mar, a área passou a integrar de forma mais significativa o planejamento urbano e turístico de Fortaleza. Hoje, equipamentos como o Cuca Barra reforçam o papel social e cultural do bairro, oferecendo atividades voltadas à juventude.

Além disso, a Ponte José Martins Rodrigues, que liga Fortaleza ao município de Caucaia, tornou-se um dos principais cartões-postais da região, especialmente ao pôr do sol.

A memória da Barra do Ceará também é preservada por marcos simbólicos, como o próprio monumento do Marco Zero, além de homenagens institucionais que reconhecem sua importância histórica.

A importância da ampliação do comércio e da fruição econômica para a Barra do Ceará se reflete no interesse do fortalezense pelo bairro. É o que conclui a prof. Victória Falcão: “Essa área tem uma grande importância simbólica e econômica. Agora a gente está vendo um crescimento de vários comércios diferentes aqui, onde também sempre teve a cultura da pesca e também dos esportes aquáticos que o pessoal faz aqui. E com essa valorização desse espaço, estamos vendo mais pessoas sendo atraídas para essa área, pessoas que vêm de outros bairros”, analisa.

Vínculos afetivos com a Barra do Ceará

Para moradores, o vínculo com o território ultrapassa gerações. Histórias de vida ligadas à pesca, à convivência comunitária e à luta por melhores condições urbanas reforçam o sentimento de pertencimento.

É o caso de trabalhadores que participaram da construção e hoje atuam em equipamentos públicos locais, mantendo viva a conexão com o bairro. Para a líder comunitária Hernilva Gomes, ainda há um processo histórico de construção em andamento na Barra do Ceará. 

“Já aconteceram vários fatos, várias políticas públicas, organizações e movimentos, como a revitalização da Vila do Mar que trouxe uma valorização para todos os barraqueiros, todos os comerciantes e para os próprios moradores com a movimentação que a Vila do Mar trouxe. Mas ainda há muito por fazer porque eu, assim como muitos moradores, acreditamos que ainda é subestimado o valor, a beleza, a grandeza e a história que começa aqui em Fortaleza, aqui no Marco Zero na Barra do Ceará”, observa Hernilva.

Caio Galeno, morador “barrista” e sócio do Marco Zero Café, na Barra do Ceará

Caio Galeno, sobrinho de Hernilva, e morador da Barra do Ceará desde a infância, se diz “Barrista” de verdade, e reflete sobre os movimentos de superação do bairro, apesar de todo o processo de marginalização que tem sofrido, historicamente: “Sempre achei que ser morador daqui era quase uma vocação. Como se fosse um convite para mudar a cidade, porque a Barra do Ceará passou por esse processo de esquecimento, de marginalização. Então acredito que “ser barrista” é muito sobre abraçar essa missão de fazer a Barra do Ceará acontecer de novo. De devolver para ela o protagonismo que ela merece ter na história da cidade”, declara.

Destaques do Marco Zero na Barra do Ceará

O Marco Zero na Barra do Ceará oferece uma vista panorâmica do rio e do mar, além de ser ponto que abriga a realização de eventos e espetáculos, sendo um ponto turístico que une a história com a cultura cearense. 

Seus arredores são históricos, e o comércio da região ajuda a contar sua história. Lá está localizado o Marco Zero Café e Culinária Cearense, um ambiente familiar em um casarão histórico que valoriza ingredientes locais, e também é tombado como patrimônio cultural da cidade.

Hernilva Gomes, líder comunitária e sócia do Marco Zero Café, na Barra do Ceará

Hernilva, que também é proprietária do Marco Zero Café, destaca os pontos turísticos da região do Marco Zero, local que, segundo ela, merece ser descoberto e ocupado pela população fortalezense: “De alguém que nasceu, se criou, estudou, trabalhou, se aposentou, abriu um negócio, conheçam o melhor pôr-do-sol do mundo, o mais lindo. O trajeto da ponte da Barra olhando para o Rio Ceará é belíssimo. A culinária da barraca, dos comércios e dos café daqui é esplêndida. Vale a pena vir de qualquer parte de Fortaleza ou de outros estados conhecer a Barra do Ceará e o início de tudo, da nossa cidade, aqui no Marco Zero de Fortaleza”, disse, orgulhosa.

Mais do que um território geográfico, a Barra do Ceará segue sendo um espaço de resistência cultural e memória histórica: um lugar onde passado e presente se encontram na construção da identidade de Fortaleza.


:: CRÉDITOS

Roteiro, Reportagem e Narração

Sandra Costa, da Urbnews

Edição de Áudio e Vídeo

Gabriel Carvalho, da Urbnews

Captação

Gabriel Carvalho, da Urbnews

Luiz Davi Pereira, Domum Video

Gráficos

Marketing Urbmidia

Domum Video

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