O Marco Zero de Fortaleza está localizado na Barra do Ceará, no lugar onde o Rio Ceará encontra o mar, simbolizando o início do povoamento da cidade com a fundação do Fortim de Santiago em 1604.
Recentemente reconhecido pela Câmara de Fortaleza, o Marco Zero na Barra do Ceará assinala o ponto onde Martim Soares Moreno e Pero Coelho de Souza estabeleceram a primeira construção, marcando o nascimento da cidade. É um local histórico de grande importância cultural, com um monumento que preserva a memória da fundação da capital cearense.
A disputa sobre o marco inicial da cidade envolve diferentes versões. A narrativa mais difundida aponta o surgimento de Fortaleza a partir do Forte Schoonenborch, construído às margens do riacho Pajeú, no Centro. No entanto, outra corrente histórica sustenta que o início da ocupação ocorreu na Barra do Ceará, nas proximidades do antigo Forte de São Tiago, por volta de 1604.
Forte de São Tiago da Barra do Ceará

O Forte de São Tiago (ou Fortim de São Tiago da Nova Lisboa) foi a primeira fortificação construída no Ceará, erguida entre 1603-1604 pelo capitão Pero Coelho de Souza na foz do Rio Ceará, no atual bairro Barra do Ceará. Localizado na margem direita, marcava o início da colonização portuguesa.
Território em disputa histórica, o Marco Zero foi reconhecido apenas recentemente pela Câmara Municipal de Fortaleza como o local onde a cidade ‘começou’. Assim diz a historiadora e professora de ciências humanas, Victória Falcão: “O Marco Zero simboliza esse início da ocupação, da formação de Fortaleza. A gente teve aqui a chegada e a dominação dos portugueses. E isso simboliza várias questões de conflito e de um processo histórico, realmente, com a população indígena que já estava nesse território. Foi esse primeiro contato que gerou a formação da nossa cidade como um todo”, afirma.
A primeira estrutura foi construída em taipa e madeira para proteger colonos de ataques indígenas e de estrangeiros franceses e holandeses. Hoje, é considerado o ‘marco zero’ da cidade, embora a colônia inicial não tenha tido sucesso, levando ao abandono e posterior reocupação.
Tendo sido posteriormente esquecida e abandonada por Pero Coelho em 1607, o forte foi retomado por Martim Soares Moreno, que ergueu o Fortim de São Sebastião no mesmo local em 20 de janeiro 1612.
Mais uma vez sido menosprezado, anos se passaram até que a primeira expedição holandesa desembarcou no local em 1637, ocupando o já quase abandonado forte de São Sebastião. A ocupação colonial teve motivações estratégicas, especialmente diante das disputas territoriais envolvendo franceses e holandeses no litoral nordestino.
À esta época, a presença da Companhia das Índias Ocidentais consolidou o domínio holandês na região, marcando um período de conflitos e transformações no território. Eles permaneceram por sete anos explorando sal e âmbar gris, até que seus integrantes foram dizimados pelos índios.
Quando os holandeses estiveram no Ceará, estes fizeram mapas que mostram como era o forte, as construções e a geografia ao seu redor.
Quando ainda estava em terras cearenses, o Capitão holandês Matias Beck ergueu na colina Marajaitiba, às margens do riacho Pajeú, o Forte de Shoonenborch. Em 1654, ele e seus homens deixam a região. Foi somente em 1726 que os portugueses retomam a colonização no Ceará, e mudam o nome do forte para Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção e daí, em 13 de abril, nasce a Vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção.
O monumento do Forte de São Tiago, hoje atualizado, conta com três representações em sua estrutura: “Nele, vão estar representados Jesus Cristo, o São Tiago e a Nossa Senhora da Assunção, que é a atual padroeira da cidade”, diz Victória.
Barra do Ceará: bairro berço de Fortaleza

Apesar das controvérsias, a Barra do Ceará é considerada por muitos historiadores como o verdadeiro berço de Fortaleza. O bairro carrega as tradições da capital cearense em suas ruas e paisagens. Com cerca de 63 mil habitantes, segundo o Censo de 2022, o bairro se destaca não apenas pela densidade populacional, mas pela relevância histórica, cultural e simbólica para o Estado.
A região, localizada às margens do Rio Ceará, já era frequentada por povos indígenas antes da chegada dos colonizadores europeus. De acordo com estudiosos, essas comunidades utilizavam o território como rota de deslocamento e espaço de subsistência, sobretudo ligado à pesca e à coleta de recursos naturais.
Ao longo do século XIX, a Barra do Ceará passou a abrigar colônias de pescadores, que moldaram a identidade local. A combinação entre rio, mar e manguezais favoreceu a pesca artesanal e a mariscagem, práticas que permanecem até hoje como parte da cultura e da economia do bairro.
Esse perfil foi reforçado com a chegada de migrantes vindos do interior do Ceará, especialmente durante períodos de seca, entre o fim do século XIX e início do século XX. A região tornou-se uma das mais populosas da cidade, embora historicamente tenha recebido pouca atenção do poder público.
Somente a partir da década de 1980, com projetos de requalificação urbana como o Polo de Lazer da Barra e o Vila do Mar, a área passou a integrar de forma mais significativa o planejamento urbano e turístico de Fortaleza. Hoje, equipamentos como o Cuca Barra reforçam o papel social e cultural do bairro, oferecendo atividades voltadas à juventude.
Além disso, a Ponte José Martins Rodrigues, que liga Fortaleza ao município de Caucaia, tornou-se um dos principais cartões-postais da região, especialmente ao pôr do sol.
A memória da Barra do Ceará também é preservada por marcos simbólicos, como o próprio monumento do Marco Zero, além de homenagens institucionais que reconhecem sua importância histórica.
A importância da ampliação do comércio e da fruição econômica para a Barra do Ceará se reflete no interesse do fortalezense pelo bairro. É o que conclui a prof. Victória Falcão: “Essa área tem uma grande importância simbólica e econômica. Agora a gente está vendo um crescimento de vários comércios diferentes aqui, onde também sempre teve a cultura da pesca e também dos esportes aquáticos que o pessoal faz aqui. E com essa valorização desse espaço, estamos vendo mais pessoas sendo atraídas para essa área, pessoas que vêm de outros bairros”, analisa.
Vínculos afetivos com a Barra do Ceará
Para moradores, o vínculo com o território ultrapassa gerações. Histórias de vida ligadas à pesca, à convivência comunitária e à luta por melhores condições urbanas reforçam o sentimento de pertencimento.
É o caso de trabalhadores que participaram da construção e hoje atuam em equipamentos públicos locais, mantendo viva a conexão com o bairro. Para a líder comunitária Hernilva Gomes, ainda há um processo histórico de construção em andamento na Barra do Ceará.
“Já aconteceram vários fatos, várias políticas públicas, organizações e movimentos, como a revitalização da Vila do Mar que trouxe uma valorização para todos os barraqueiros, todos os comerciantes e para os próprios moradores com a movimentação que a Vila do Mar trouxe. Mas ainda há muito por fazer porque eu, assim como muitos moradores, acreditamos que ainda é subestimado o valor, a beleza, a grandeza e a história que começa aqui em Fortaleza, aqui no Marco Zero na Barra do Ceará”, observa Hernilva.

Caio Galeno, sobrinho de Hernilva, e morador da Barra do Ceará desde a infância, se diz “Barrista” de verdade, e reflete sobre os movimentos de superação do bairro, apesar de todo o processo de marginalização que tem sofrido, historicamente: “Sempre achei que ser morador daqui era quase uma vocação. Como se fosse um convite para mudar a cidade, porque a Barra do Ceará passou por esse processo de esquecimento, de marginalização. Então acredito que “ser barrista” é muito sobre abraçar essa missão de fazer a Barra do Ceará acontecer de novo. De devolver para ela o protagonismo que ela merece ter na história da cidade”, declara.
Destaques do Marco Zero na Barra do Ceará
O Marco Zero na Barra do Ceará oferece uma vista panorâmica do rio e do mar, além de ser ponto que abriga a realização de eventos e espetáculos, sendo um ponto turístico que une a história com a cultura cearense.
Seus arredores são históricos, e o comércio da região ajuda a contar sua história. Lá está localizado o Marco Zero Café e Culinária Cearense, um ambiente familiar em um casarão histórico que valoriza ingredientes locais, e também é tombado como patrimônio cultural da cidade.

Hernilva, que também é proprietária do Marco Zero Café, destaca os pontos turísticos da região do Marco Zero, local que, segundo ela, merece ser descoberto e ocupado pela população fortalezense: “De alguém que nasceu, se criou, estudou, trabalhou, se aposentou, abriu um negócio, conheçam o melhor pôr-do-sol do mundo, o mais lindo. O trajeto da ponte da Barra olhando para o Rio Ceará é belíssimo. A culinária da barraca, dos comércios e dos café daqui é esplêndida. Vale a pena vir de qualquer parte de Fortaleza ou de outros estados conhecer a Barra do Ceará e o início de tudo, da nossa cidade, aqui no Marco Zero de Fortaleza”, disse, orgulhosa.
Mais do que um território geográfico, a Barra do Ceará segue sendo um espaço de resistência cultural e memória histórica: um lugar onde passado e presente se encontram na construção da identidade de Fortaleza.
:: CRÉDITOS
Roteiro, Reportagem e Narração
Sandra Costa, da Urbnews
Edição de Áudio e Vídeo
Gabriel Carvalho, da Urbnews
Captação
Gabriel Carvalho, da Urbnews
Luiz Davi Pereira, Domum Video
Gráficos
Marketing Urbmidia
Domum Video




