Por Juscelino Filho e Thiago Sabóia
No coração do Jangurussu, na Regional VI de Fortaleza, existe um lugar onde o futebol é uma paixão que nunca some. Aos domingos, no Sítio São João, conjunto habitacional do bairro, o roteiro se repete: sol a pino, torcida se apertando entre as grades, resenha que começa antes de a bola rolar e se estende até depois do apito final. Nesse cenário, existe o CR1, clube fundado em 2018 e atual campeão da Libertadores da Várzea. Mais do que um time, o CR1 é uma engrenagem em uma Fortaleza que completa 300 anos exaltando a importância da comunidade dentro da metrópole.
+ Veja mais notícias do Futebora

O nome veio do improviso. A ideia inicial era “Rua 1”, devido a uma rua do bairro. Como já havia um time com esse nome, houve uma votação e a escolha foi pelo nome CR1.
O CR1 tem cerca de 20 integrantes, entre jogadores e diretoria. Eles começaram como um time para um torneio no Dia do Trabalho – data simbólica para quem pouco descansa – e seguem colecionando taças até hoje.
No CR1, as chuteiras dividem espaço com outras ferramentas. Marceneiro de profissão, Claudiano Oliveira personifica a gestão da várzea: “Às vezes sou roupeiro, às vezes jogador, às vezes treinador. Faço de um tudo”, relata.
Everson e Richard, também da equipe local, são motorista de aplicativo e agente comercial, respectivamente. “A gente não treina porque todos trabalham, não tem tempo. O período de treino seria manhã ou tarde, e estamos na labuta. O jogo é à noite ou no fim de semana, na base da lista: marcou o nome, vai pro jogo e desempenha o que sabe”, explicam.
A economia
Não há patrocinadores ou investidores no CR1. “Se a inscrição custa um valor X, cada um chega com uma parte e ajuda do jeito que pode”, explica Claudiano.
A economia, embora invisível para a Capital, sustenta famílias dentro da comunidade. “Em dia de campeonato, a Areninha lota. As pessoas vêm vender salgado, batata, pratinho… se torna uma renda para o bairro. O dinheiro fica aqui mesmo”, observa Claudiano.
O título da Libertadores da Várzea rendeu uma premiação de R$ 3 mil. Valor que se torna simbólico ao ser dividido entre todos os integrantes. “O dinheiro foi todo investido no Espetinho do Renato. Teve gente que passou a noite toda bebendo, comemorando com a família. É a nossa recompensa”, conclui o diretor.
O legado
“Se ele estivesse vivo, era ainda mais doido por esse time. Podia apostar a casa que ele não tinha medo de nós perdermos. Enquanto eu for vivo, o CR1 vai existir”, diz Richard em referência ao primo, já falecido, um dos fundadores do clube.

Mais do que exportar craques, o foco é a permanência. Em uma Fortaleza crescente em desigualdades, o campo iguala os adversários. “A gente não procura só um atleta, procura formar um cidadão. Se não conseguir sair um profissional, com certeza sai um cidadão”, afirma Claudiano.
“Tirar o jovem da rua. Três horas da tarde a criança está aqui jogando, ocupando a mente, em vez de estar fazendo coisa errada, isso é a nossa maior recompensa”, completa Richard.
A várzea pulsa na aniversariante Fortaleza. O CR1 é o espelho. Ativo em diferentes modalidades (X1, Fut7, Fut11, X2 e futsal), o clube mostra que a várzea não perdeu espaço para a metrópole. O time não é uma empresa ou uma escolinha; é uma família formada por outras famílias que se uniram pelo amor ao bairro e ao futebol.
O CR1 existe porque alguém, entre um serviço de marcenaria e uma corrida de aplicativo, se importou com o futebol. E para a sorte do Sítio São João, a resposta para a pergunta “vai ter jogo hoje?” continua sendo sempre “sim”.
Areninhas e futebol de várzea
O projeto Areninhas teve início em Fortaleza no ano de 2014 com o objetivo de urbanizar e requalificar campos de futebol em bairros com alto índice de vulnerabilidade social.
Mais de dez anos depois, a iniciativa passou a ser abraçada pelo Governo do Ceará, que expandiu o projeto para o interior. Em 2026, há 445 Areninhas (número de abril de 2026) no estado do Ceará, sendo 147 (número de abril de 2026) somente na Capital cearense.
Quanto à várzea, não há dados que quantifiquem todos os times e competições espalhados por Fortaleza. Para cada bairro, há um torneio organizado por pessoas diferentes. Estima-se algo na ordem das centenas ou até de milhares de equipes que mantém o futebol vivo e pulsante em campos de terra nas mais diversas comunidades.





