A euforia nacional com a Copa do Mundo, que faz com que a demanda por alguns produtos dobre ou triplique no varejo alimentar, deve dar lugar a um evento marcado por mais austeridade e com a incorporação de novos hábitos de consumo.
O churrasco bovino deve dar mais espaço ao espetinho de frango, além do aumento dos petiscos de air fryer, das vendas de cerveja zero álcool e dos refrigerantes sem açúcar.
Este é o prognóstico da Scanntech Brasil, especialista em inteligência de dados e tecnologia para o varejo.
Vendas em véspera de jogo devem aumentar em 24%
Um estudo da consultoria, comparando o consumo no varejo alimentar durante os jogos do Brasil nos últimos grandes eventos de futebol Copa do Mundo 2022, Mundial de Clubes 2025, Intercontinental 2025 e Libertadores 2024 e 2025, e a demanda nas 12 semanas anteriores às partidas, apontou que bola em campo indica aumento de 24% nas vendas em dia de véspera de jogo.
“É bem relevante um evento que faça o consumo crescer nesta proporção”, diz Thomaz Machado, CEO da Scanntech Brasil. “A gente vem de trimestres difíceis para o varejo, de queda no volume vendido. A Copa vem dar um pouco de ânimo, ainda que o consumidor continue tentando driblar o orçamento apertado, fazendo novas escolhas”, afirma.
De acordo com o executivo, o brasileiro quer fazer com que o seu dinheiro renda mais, o que tem levado, este ano, a um aumento no consumo de embalagens tamanho família uma tendência que deve ganhar peso na Copa, que promove o consumo em grupos.
A compra de carnes para churrasco cresce em época de Copa, mas a consultoria estima que continue em alta a demanda por cortes de frango, que custam 44%, em média, do preço da carne bovina. Em 2025, a cada 950 gramas de frango, o consumidor levou 586 gramas de carne bovina para casa.
Pesquisa aponta diferenças significativas em comparação à Copa de 2022
A Scanntech observa também um aumento da procura por petiscos de air fryer, inclusive com a compra do equipamento, uma alternativa mais em conta do que o churrasco.
Em relação à Copa de 2022, há diferenças significativas em novos hábitos, como o aumento do consumo de cerveja zero álcool e de refrigerantes sem açúcar. “É uma tendência observada nos últimos anos, que continua em alta”, diz.
No varejo alimentar, o maior consumo se dá na véspera dos jogos, com o consumidor abastecendo a despensa para as partidas. É neste momento que os varejistas precisam ser mais assertivos sobre o que fazer promoções, uma vez que os custos, por conta dos juros, estão cada vez mais altos, afirma.
“Em época de Copa, a gente sempre prepara as lojas com ofertas e um volume maior de produtos com tendência a vender mais nesse tipo de ocasião, como cervejas, refrigerantes, sucos, itens de churrasco, pipoca de micro-ondas, petiscos congelados e salgadinhos”, diz Fábio Iwamoto, diretor da rede Chama Supermercados, da zona leste de São Paulo. “Também fazemos promoções em parceria com a indústria.”
A aposta é que as vendas nos supermercados sejam favorecidas em relação ao último evento porque este torneio acontece na época tradicional, de junho e julho, diferentemente da Copa do Catar que, por conta das altas temperaturas no país sede, foram transferidas para o final do ano.
Segundo Erlon Ortega, presidente da Apas (Associação Paulista de Supermercados), a expectativa é positiva. “Os jogos são à noite, o que favorece as reuniões em família e entre amigos”, afirma. O executivo reconhece que o aumento de preços da carne bovina pode gerar substituições por frango e porco.
Mesmo quem não está no time dos alimentos e bebidas quer pegar carona no evento, como a categoria de produtos de limpeza.
“É a primeira vez que fazemos uma promoção de Veja e Vanish casada com a Copa”, diz Ana Beatriz Guerra, principal executiva de marketing da fabricante Reckitt. “É uma maneira de movimentar a categoria em um momento de aumento do consumo no varejo alimentar.”
A promoção prevê prêmios de até R$ 700 (pago em cartão virtual) e sorteios semanais de R$ 30 mil (em certificados de ouro). Concorre quem gastar ao menos R$ 20 em produtos Veja ou Vanish.
O investimento em marketing na Copa é consistente: o aporte nas campanhas que usam o mote do mundial deve chegar a R$ 5,5 bilhões, segundo cálculos do publicitário Luiz Lara, presidente do conselho do Cenp (Fórum de Autorregulação do Mercado Publicitário).
O montante representa 20% de tudo o que foi investido em publicidade em 2025. A maior parte, R$ 4,2 bilhões, vem das cotas oficiais de patrocínio.
Daniele Madureira, da Folhapress




