Cientistas brasileiros deram um passo importante no desenvolvimento de um exame de sangue capaz de identificar o Alzheimer com alta precisão, utilizando a proteína p-tau217 como principal biomarcador. O avanço pode revolucionar o diagnóstico precoce da doença e abrir caminho para que o teste seja, futuramente, incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Atualmente, o diagnóstico depende de métodos caros e, muitas vezes, invasivos, como o exame de líquor, realizado por meio de punção lombar, ou de exames de imagem de alto custo.
As novas pesquisas, apoiadas pelo Instituto Serrapilheira, têm confirmado que o p-tau217 no sangue apresenta performance acima de 90% quando comparado ao “padrão ouro”, o exame de líquor. Esse nível de confiabilidade atende ao padrão recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e reforça o potencial da tecnologia para uso clínico.
Impacto para o diagnóstico e o cuidado com idosos
O Alzheimer afeta mais de 1,8 milhão de brasileiros, segundo o Relatório Nacional sobre Demências (2024). A previsão é de que esse número triplique até 2050, impondo ao país um dos maiores desafios de saúde pública nas próximas décadas.
Para o médico geriatra Dr. Oberdã Moreira, Secretário Geral da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia no Ceará (SBGG-CE) e Diretor Científico da Associação Brasileira de Alzheimer no Ceará (ABRAZ-CE), os avanços em biomarcadores representam uma mudança significativa na forma como o cuidado será conduzido no futuro.
“Diante de uma doença devastadora, com impacto individual, familiar e social tão importante, toda nova tecnologia é bem-vinda. A capacidade de detectar sinais da doença através de biomarcadores tem o potencial de transformar a intervenção. Com diagnósticos mais precoces, podemos pensar em estratégias que desaceleram a evolução e permitam que as pessoas vivam com mais dignidade e qualidade de vida”, explica.
Segundo o médico, apesar das limitações de custo e acesso, o desenvolvimento de testes menos invasivos inaugura uma nova fase na prática clínica, na qual intervenções precoces poderão se tornar realidade para um número maior de pessoas.
Caminho até chegar ao SUS
Embora exames de sangue para Alzheimer já existam na rede privada, como o PrecivityAD2, que pode custar até R$ 3.600, ainda é necessário desenvolver uma alternativa nacional economicamente viável. Os pesquisadores reforçam que a inclusão no SUS exigirá etapas rigorosas de validação, definição de logística e avaliação de impacto em larga escala.
Os estudos ampliados começam em 2025, com resultados consolidados previstos para os próximos dois anos. Uma das prioridades será identificar a prevalência da fase pré-clínica da doença, que pode surgir anos antes dos primeiros sintomas.



