A Universidade Federal do Ceará (UFC) oferece aos estudantes de graduação uma disciplina que foge do currículo tradicional: o componente curricular intitulado “Felicidade”. Ofertada semestralmente, desde 2024, aos alunos da instituição, a matéria propõe uma reflexão teórica e prática sobre bem-estar, saúde mental, emoções, sentido da vida e relações sociais, a partir de bases científicas e interdisciplinares.
Vinculada ao Instituto de Cultura e Arte (ICA) da UFC, a disciplina é aberta a alunos de diferentes cursos. A proposta é discutir o conceito de felicidade para além do senso comum, reunindo contribuições da psicologia, filosofia, sociologia, neurociência e estudos culturais. Ao longo do semestre, os estudantes são estimulados a refletir sobre hábitos, escolhas, afetos, trabalho, tempo, consumo e formas de viver em sociedade.
Segundo o Professor Doutor Cavalcante Junior, que ministra a disciplina, a iniciativa surgiu com o objetivo de mostrar aos estudantes a evolução histórica dos estudos da felicidade, desde os pré-socráticos na Grécia antiga aos tempos atuais.
Ainda segundo o professor, os estudos também dialogam com pesquisas da chamada ciência da felicidade, campo que investiga fatores associados ao bem-estar subjetivo, como relações interpessoais, propósito, engajamento, autocuidado e condições sociais. Atividades práticas, leituras dirigidas, debates e produções reflexivas fazem parte da metodologia.
Cavalcante Jr. explica que, após os conceitos teóricos, os estudantes apresentam uma produção inspirada no conceito de felicidade coletiva. O processo é construído de forma livre e criativa, permitindo que eles expressem suas próprias interpretações do que foi aprendido: “Uma orientação importante que apresento para o trabalho final do curso é a sugestão de que escolham fazer algo que sempre sentiram vontade de realizar, mas que nunca encontraram uma oportunidade”, conta.
As experiências desenvolvidas pelos alunos têm sido as mais variadas. Segundo o professor, as apresentações vão desde a criação de jogos de tabuleiro, interpretação de emoções até a preparação de receitas para a degustação da turma.
Debater a felicidade é tendência nacional
A experiência da UFC se insere em um movimento mais amplo observado em universidades brasileiras. Instituições como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) também passaram a ofertar disciplinas com foco em felicidade, bem-estar e qualidade de vida. O tema, inclusive, tem ganhado espaço em cursos de diferentes áreas, do direito às engenharias.
O interesse dos estudantes por esse tipo de conteúdo cresce à medida que temas como ansiedade, estresse acadêmico, produtividade e equilíbrio emocional entram no centro das discussões sobre educação superior. Na UFC, a disciplina despertou atenção dentro e fora do campus, com repercussão nas redes sociais e interesse de alunos de diversas áreas.
Para a psicóloga Gabriela Rodrigues, especialista em Psicologia Positiva e Desenvolvimento Humano, a discussão do tema no ambiente acadêmico é benéfica para ampliar as vivências e trajetórias dos alunos, contribuindo diretamente para o crescimento pessoal e profissional do indivíduo: “Ela amplia a consciência, possibilidades e trocas que enriquece a trajetória, a vida do indivíduo e proporciona, como a gente fala na psicologia positiva, uma consciência maior em relação às forças e às potencialidades de cada um”, aponta.
De acordo com Gabriela, definir felicidade não é tarefa simples, pois se trata de um caminho individual que reúne elementos subjetivos. Buscar e vivenciar emoções positivas ao longo de uma jornada com propósito, orientada para a realização pessoal e o florescimento pleno, faz parte do processo para alcançá-la.
“Não tem uma forma, não tem uma receita, porque cada pessoa vai construir a sua felicidade e entender felicidade de formas diferentes. E vivenciar isso também de formas diferentes”, afirma a especialista.




