Play Video
Brasil

Proibição de celular nas escolas funciona? Ampliação da medida no RJ abre debate entre educadores e pais

Por Maria Eduarda Andrade
Atualizado há 2 anos
Tempo de leitura: 7 mins
Compartilhe a notícia:
O debate divide opiniões entre pais e educadores. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Que a tecnologia é uma grande aliada na educação isso não se pode negar, mas até que ponto o uso de aparelhos tecnológicos contribuem dentro das salas de aula? Esse debate entrou em destaque após o Governo do Rio de Janeiro abrir consulta pública sobre a proibição total de celulares em escolas na última segunda-feira (11). 

Achar um equilíbrio para o uso deliberado dos aparelhos celulares conectados à internet tem sido uma das principais preocupações entre os professores e pedagogos que trabalham com crianças e adolescentes em todo o País. Definir os limites, o que ajuda e o que atrapalha fazem parte da problemática em conjunto com os pais.

É nessa luta diária que a pedagoga formada pela UNINTA, Deisiane Souza, de 26 anos, consegue dar conta de 25 crianças, entre 8 e 11 anos, no espaço onde dá aulas de reforço escolar, em Viçosa do Ceará, cidade localizada na Serra da Ibiapaba, a 359,9 km de Fortaleza. 

Deisiane conta a UrbNews que o acesso a internet e ao celular de fato traz muitos fatores positivos que facilitam na hora de sanar uma dúvida, mas que é muito complicado estabelecer até onde é benéfico. 

“Há sim pontos positivos, porque o uso dos celulares podem servir no auxílio de atividades e até mesmo em pesquisas mais amplas. Ajuda também os alunos que têm suas curiosidades e aos professores que gostam de repassar vídeos, notícias e algo a mais sobre certos conteúdos de suas aulas”, explica a pedagoga.

Deisiane (a direita da foto vestida de amarelo) e alguns de seus alunos.

“Mas, há também uma preocupação, pois o uso do celular muitas vezes pode tirar a atenção do aluno, fazendo com que o mesmo demore a se concentrar ou fazer o uso incorreto dessa tecnologia. Além, das novas dificuldades no aprendizado, pode gerar um risco para o aluno, fazendo com que ele fique lento e sem interesse nas aulas”, relata Deisiane sobre o lado negativo. 

Para os pais, o uso de telas tende a ser uma alternativa para o auxílio do aprendizado dentro de casa, como é o caso da mãe da Maria Fernanda, de 9 anos, a também pedagoga Daiane Ribeiro, natural do Rio de Janeiro, mas moradora de Fortaleza há 6 anos. 

A carioca conta que, como mãe e pedagoga, acha a proibição um ponto problemático, tendo em vista que nos dias atuais tudo gira em torno da tecnologia. Para ela, o correto seria ensinar o uso de forma adequada dentro e fora das salas de aulas para que o celular se torne um aliado na educação. 

“Eu Daiane, pedagoga, formada pela UFC, em minha opinião acho que não seria benéfico essa proibição. Eu acho que o mundo hoje gira em torno da tecnologia, eu acho que existem outros fatores para julgar e olhar dentro das escolas do que só o uso do celular. Pelo contrário, acho inclusive que as escolas deveriam agregar e ensinar as crianças a usarem da forma correta”, opina a profissional.

Como mãe, Daiane deixa claro que os limites e educação são um conjunto de ensinamentos passados pelos pais em parceria com a escola. “A minha filha é uma criança de 9 anos e ela não tem celular, mas ela não tem celular porque ela não tem a maturidade para administrar uma tela, óbvio que ela sabe mexer no celular do papai e da mamãe, porque a escola não ensina isso para a criança pois quem tem que educar é o pai e a mãe, mas proibir é uma palavra muito forte. Proibir que a criança tenha acesso a tecnologia é complicado demais (…) não acho que é uma coisa que beneficia e acho que outros fatores devem ser observados, como a presença regularmente dos pais dentro das escolas”, sugere Daiane. 

Daiane e a filha, Maria Fernanda de 9 anos.

Para Deisiane, o discurso dos benefícios é bom na teoria, mas em contrapartida pode acarretar em alguns problemas. “Mesmo com tantos argumentos lindos que vão ajudar nisso e aquilo, é um problema enorme, tem que haver regras, pois muitas vezes acabam abusando desse uso liberado”, relata a pedagoga. 

O desafio para os pais é: até que ponto entregar as telas para as crianças dentro de casa pode ser um fator positivo? “Infelizmente na realidade em que vivemos hoje alguns pais entregam a criança para o celular criar, então a gente entende que isso é errado pois quem tem que criar é o pai e a mãe e não o celular e você perde tempo de qualidade com o teu filho por ele estar no celular (…) prefiro que minha filha tenha maturidade para poder entender e saber utilizar o aparelho de forma correta”, finaliza Daiane. 

O que falam os órgãos públicos?

Desde agosto, vigora um decreto municipal no Rio de Janeiro impedindo que alunos utilizem esses equipamentos dentro das salas de aulas. Na consulta pública, a sociedade civil será ouvida sobre a ampliação dessa medida para incluir o recreio e os intervalos.

O município alega ser o primeiro do país a adotar medidas recomendadas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em seu Relatório de Monitoramento Global da Educação de 2023. O documento foi publicado em julho. Ao ser procurada pela Agência Brasil, a Unesco afirmou que, em nenhum momento, houve recomendação para a proibição do uso de celulares ou de qualquer outro equipamento tecnológico em sala de aula.

De acordo com a entidade, o relatório foi produzido por um grupo de pesquisadores independentes e traz um debate sobre a questão. “O uso do celular em sala de aula, quando for excessivo e não for aplicado para fins pedagógicos, pode trazer alguns prejuízos para a aprendizagem dos estudantes. É importante formar professores e também orientar os estudantes para utilizar os celulares em sala de aula apenas para fins pedagógicos”.

O relatório divulgado pela Unesco tem uma série de conclusões. Ele informa que existem poucas evidências do valor agregado da tecnologia digital na educação e que a tecnologia evolui mais rápido do que é possível avaliá-la. Também aponta que o direito à educação é, cada vez mais, sinônimo de direito à conectividade, embora ainda exista grande desigualdade no acesso à internet. Ainda assim, o relatório reconhece que, em diversos lugares do mundo, a tecnologia digital possibilitou ampliar o alcance dos recursos de ensino e aprendizagem.

Há outras conclusões de destaque: os professores muitas vezes se sentem despreparados e inseguros para dar aulas usando tecnologia, enquanto o conteúdo digital é produzido por grupos dominantes e beneficia principalmente estudantes instruídos, de países ricos. Uma preocupação diz respeito à segurança de dados: levantamento mostrou que 89% dos 163 produtos de tecnologia recomendados durante a pandemia de covid-19 tinham a capacidade de coletar informações de crianças. Por fim, o relatório contabiliza que quase um quarto dos países proibiram o uso de celulares nas escolas. As informações são da Agência Brasil.

217
Compartilhe

Assuntos

Notícias relacionadas

Brasil, futebol feminino
Futebol Feminino
Futebol Feminino: Brasil e Estados Unidos fazem amistoso no Castelão em junho
NOTICIAS URBNEWS-1 (4)
Educação
Dia Mundial do Livro: leitura é essencial na formação de cidadãos, diz professor
Romeu Aldigueri reforça melhorias na Alece com mudanças estruturais e novos espaços
Política
Romeu Aldigueri reforça melhorias na Alece com mudanças estruturais e novos espaços
Brasil, futebol feminino
Futebol Feminino
Futebol Feminino: Brasil e Estados Unidos fazem amistoso no Castelão em junho
NOTICIAS URBNEWS-1 (4)
Educação
Dia Mundial do Livro: leitura é essencial na formação de cidadãos, diz professor
Romeu Aldigueri reforça melhorias na Alece com mudanças estruturais e novos espaços
Política
Romeu Aldigueri reforça melhorias na Alece com mudanças estruturais e novos espaços
Cidades registram baixas temperaturas após feriado com chuvas em todo o Ceará, mostra Funceme
Ceará
Cidades registram baixas temperaturas após feriado com chuvas em todo o Ceará, mostra Funceme

Inscreva-se em nossa Newsletter!

A forma mais rápida de manter-se atualizado.
Receba as notícias mais recentes, de segunda a sexta-feira, diretamente na sua caixa de e-mail.