Deputados federais de diferentes partidos, tanto da base aliada quanto da oposição ao governo Lula, utilizaram as redes sociais para manifestar arrependimento após a aprovação da chamada PEC da Blindagem. A proposta de emenda à Constituição, aprovada na Câmara com 344 votos favoráveis e 133 contrários, dificulta a abertura de processos criminais e prisões contra parlamentares.
Entre os arrependidos estão deputados do Partido dos Trabalhadores (PT), legenda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Parte da bancada, cerca de dez parlamentares, votou a favor do texto. Também há entre os que recuaram representantes de siglas que cogitam deixar a base governista, como União Brasil e PP. Os motivos apresentados variam entre pressões internas e articulações políticas.
A PEC, que ainda será analisada pelo Senado, foi duramente criticada nas redes sociais e chegou a ser apelidada de “PEC da Bandidagem”. Entre outros pontos polêmicos, a proposta amplia o foro privilegiado para presidentes de partidos e retira do STF (Supremo Tribunal Federal) a prerrogativa de autorizar investigações contra parlamentares sem o aval prévio do Congresso.
O deputado Pedro Campos (PSB-PE), líder do partido na Câmara e irmão do prefeito do Recife, João Campos (PSB), publicou um vídeo em que admite ter errado ao votar favoravelmente. Ele justificou sua posição afirmando que havia o receio de que, sem a aprovação da PEC, outras pautas de interesse do governo seriam travadas.
“Nós do campo progressista, tínhamos duas posições possíveis. Uma era dizer que não aceitássemos discutir nenhum ponto dessa PEC, e arriscar que a anistia passasse, além de ver pautas importantes do governo, como a tarifa social de energia e o Imposto de Renda, boicotadas, ou discutir o texto da PEC, tentar retirar os maiores absurdos e buscar um caminho para barrar a anistia e avançar as pautas populares”, disse o deputado.
Pedro Campos afirmou ainda ter ingressado com pedido no STF para anular os votos da PEC, alegando manobras que teriam permitido a reintrodução do voto secreto, aprovado posteriormente por meio de emenda.
“A PEC passou do jeito que nós não queríamos, inclusive com uma manobra para retomar o voto secreto”, afirmou.
Também pelas redes sociais, o deputado Merlong Solano (PT-PI) divulgou uma “nota de retratação” em que pede desculpas ao povo do Piauí e ao seu partido pela decisão de apoiar a proposta.
“Não pensem que foi uma decisão fácil. Na política, por vezes somos levados a fazer escolhas difíceis, que exigem renúncias e sacrifícios”, escreveu Solano.
Segundo ele, o voto a favor da PEC teve como objetivo “preservar” o diálogo com a presidência da Câmara, atualmente sob comando de Hugo Motta (Republicanos-PB).
A deputada Silvye Alves (União-GO), por sua vez, também se desculpou com os eleitores e anunciou sua desfiliação do partido. Ela relatou ter sido ameaçada por figuras influentes do Congresso para votar a favor do projeto.
“Eu segui minha intuição e votei contra. A partir desse momento eu comecei a receber muitas ligações de pessoas influentes do Congresso Nacional”, disse em vídeo publicado no Instagram. “Disseram que com a votação contra eu receberia muitas retaliações.”
Silvye afirmou que acabou cedendo à pressão: “Fui covarde e mudei meu voto para que a PEC fosse aprovada.” Acrescentou ainda que não gostaria de deixar esse episódio marcado em sua trajetória política.
Outro que se retratou publicamente foi o deputado Thiago de Joaldo (PP-SE). Em vídeo gravado dentro de um carro, o parlamentar afirmou que é necessário reconhecer o erro da Câmara e se comprometeu a trabalhar para barrar a proposta no Senado.
“Tenho ciência que é impossível agradar a todos no Congresso Nacional”, disse. “Mas nesse caso é preciso reconhecer que a Câmara errou na mão e o remédio pode ter saído mais letal do que a enfermidade que se queria tratar.”
Joaldo declarou ter se aprofundado no tema após a votação, motivado por ligações de especialistas. “Reconheço que falhei, peço desculpas e trabalharei para corrigir”, concluiu.




