Alcançar uma nota alta na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pode parecer um mistério, mas disciplina e coerência fazem toda a diferença. Para muitos estudantes, o texto dissertativo-argumentativo pode soar como um enigma, porém esse receio pode ser superado com prática aliada a método.
Começar cedo, agora já no início do ano, pode ser um importante diferencial. Com uma rotina semanal estratégica, é possível trabalhar exatamente os pontos mais cobrados pelas bancas avaliadoras: repertório, tese, coesão, correção gramatical e controle dos erros mais recorrentes entre os candidatos do Enem.
Repertório é sentido
Um dos principais critérios de avaliação no Exame é a capacidade de aplicar o repertório sociocultural de forma lógica, ou seja, relacionar o conhecimento de mundo diretamente ao tema proposto.
Com uma rotina bem definida, dá pra se construir um repertório de maneira contextualizada. Boas opções incluem reportagens, artigos, filmes e outros conteúdos que possam ser utilizados de forma argumentativa.
Lorena Cardoso, professora de redação, afirma que o repertório é “basicamente a bagagem que o estudante traz de fora para dar peso ao que está dizendo”.
Ela explica que argumentos sustentados apenas no “eu acho” tendem a ser frágeis, enquanto referências a fatos históricos, documentários ou acontecimentos reais fortalecem o texto. “O segredo não é o número de citações, mas como você amarra esse conhecimento ao tema da redação”, afirma.
Tese bem estruturada
Outro erro frequente entre os candidatos do Enem está na formulação da tese. Introduções genéricas ou contraditórias acabam sendo comuns e comprometem o texto desde o início, dificultando o desenvolvimento dos argumentos.
Por isso, uma etapa essencial da rotina é o treino exclusivo de introduções. Produzir diferentes teses para um mesmo tema ajuda o estudante a compreender melhor o comando da proposta.
Para Lorena, a tese “é o coração da redação; é aquele posicionamento crítico que você apresenta logo de cara, na introdução”.
A professora recomenda a estratégia de pensar em “dois culpados” ao formular a tese. “Se o tema for o lixo nas ruas, por exemplo, sua tese pode apontar a falta de conscientização das pessoas e a falha do governo na coleta. Assim, você já deixa o corretor avisado: vou falar de educação no primeiro parágrafo e de gestão pública no segundo”, explica.
Coesão: o avanço do texto
Não basta ter boas ideias se elas não se conectam. A coesão é responsável por dar fluidez ao texto e garantir que o avaliador compreenda o encadeamento dos argumentos.
A professora explica que a coesão é “a parte gramatical que ‘cola’ o texto”, fazendo com que frases e parágrafos não pareçam pensamentos soltos. Segundo ela, o uso adequado de conectivos é indispensável.
“Para não errar, você precisa usar bem os conectivos – aquelas palavras como ‘além disso’, ‘porém’, ‘por outro lado’ e ‘portanto. Elas funcionam como sinalizações para o leitor, avisando se você vai dar um exemplo ou mostrar um contraponto”, afirma.
Com a estratégia semanal, o treino de coesão envolve o uso consciente de conectivos, organizados por função (causa, consequência, oposição e conclusão). Exercícios de reescrita, substituindo apenas os conectores de um parágrafo, ajudam a perceber como pequenas escolhas linguísticas alteram a força argumentativa do texto.
Correção é essencial
Após a escrita, muitos alunos se limitam a conferir a nota recebida, sem analisar o que precisa ser melhorado. Esse é um dos hábitos que mais atrasam a evolução do candidato.
Para auxiliar nesse processo, o Ministério da Educação (MEC) lançou, em outubro do ano passado, um aplicativo chamado “MEC Enem – O Simuladão do Enem”. O app é uma ferramenta de estudo que simula a experiência do Enem e contribui para a preparação dos estudantes. Ele é voltado a todos que desejam melhorar suas notas, especialmente egressos do ensino médio, alunos de cursinhos populares e beneficiários do programa Pé-de-Meia.
Na estratégia semanal, Lorena explica que o ideal é ir além da correção automática. “O aplicativo do MEC é uma iniciativa excelente e além dela existem outras formas de evoluir na escrita. Recomendo plataformas como a Imaginie ou a Redação Online, onde professores de verdade corrigem seu texto e dão um feedback detalhado”, diz. Segundo ela, estudar a fundo a grade de correção do Enem permite que o aluno desenvolva um olhar mais crítico e passe a identificar seus próprios erros.
Quais são os erros mais comuns?
Os erros mais recorrentes entre os candidatos são:
- fuga parcial do tema;
- falta de defesa consistente da tese;
- argumentos superficiais;
- problemas de concordância;
- conclusões incompletas ou sem proposta de intervenção.
A recomendação, segundo Lorena, é atenção redobrada à argumentação e à proposta final. “Corrigindo redações há 8 anos, vejo dois erros que se repetem muito. O primeiro é a falha na argumentação: o aluno joga uma citação linda, mas não explica o que ela tem a ver com o resto. É o ‘repertório morto’”, afirma.
Outro problema frequente, segundo a professora, é a proposta de intervenção incompleta. “Se faltar um deles, você já perde a chance de tirar 200 na competência 5”, alerta. “Quando você entende o que as cinco competências pedem, começa a desenvolver um olhar clínico e passa a ser o seu próprio primeiro corretor”, conclui a professora Lorena.
Segundo algumas fontes, o Enem 2026 já tem datas previstas para 1º e 8 de novembro. A redação, porém, permanece uma incógnita até lá. Os temas dos três anos anteriores foram: “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, “Desafios para a valorização da herança africana no Brasil” e “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”.
Diante desse histórico, vale pesquisar e se aprofundar em temas de relevância na sociedade atual como segurança alimentar, redes sociais e liberdade de expressão, meio ambiente e até mesmo inteligência artificial.




