Uma terapia inovadora desenvolvida no Brasil está renovando as esperanças de pacientes que enfrentam alguns dos tipos mais agressivos de câncer hematológico. Resultados preliminares divulgados nesta quarta-feira (10) apontam que a versão brasileira da terapia CAR-T Cell apresentou resposta positiva em 87,5% dos pacientes com linfoma não Hodgkin submetidos ao tratamento experimental.
A tecnologia foi desenvolvida pelo Hemocentro de Ribeirão Preto em parceria com o Instituto Butantan e a Universidade de São Paulo (USP), e é considerada uma das mais avançadas estratégias terapêuticas da medicina moderna no combate ao câncer.
Os dados fazem parte de um estudo clínico conduzido pela USP, que avalia a segurança, os possíveis efeitos adversos e a eficácia do tratamento. Segundo os pesquisadores, aproximadamente nove em cada dez pacientes tratados apresentaram redução significativa ou até mesmo desaparecimento dos tumores após receberem a terapia.
A CAR-T Cell é um tratamento personalizado que utiliza as próprias células de defesa do paciente para combater a doença. O procedimento consiste na coleta dos linfócitos T (células responsáveis pela defesa do organismo) que são geneticamente modificados em laboratório para reconhecer e atacar as células cancerígenas. Após esse processo, as células são reinfundidas no paciente, fortalecendo a resposta do sistema imunológico contra o câncer.
Considerada uma das maiores revoluções da oncologia nas últimas décadas, a terapia já é utilizada em diversos países, mas os custos elevados sempre representaram um desafio para sua ampliação. No Brasil, versões importadas podem custar milhões de reais por paciente. A proposta da tecnologia nacional é justamente ampliar o acesso ao tratamento por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).
Terapia inovadora supera expectativas dos pesquisadores
Segundo o professor Rodrigo Calado, titular de Hematologia da USP e um dos coordenadores do estudo, os resultados observados até agora superaram as expectativas da equipe de pesquisa.
“Essa terapia é a mais moderna no tratamento de leucemias e linfomas, e foi desenvolvida internamente nos laboratórios da USP para ser disponível aos pacientes do SUS. O resultado até agora nos surpreendeu, com resposta de 87,5% dos pacientes ao tratamento”, afirmou o especialista.
Além dos casos de câncer hematológico, os pesquisadores já planejam expandir o uso da tecnologia para outras enfermidades. Estudos clínicos voltados para doenças autoimunes, como lúpus e miastenia gravis, devem começar em breve, ampliando ainda mais o potencial de aplicação da terapia.
Atualmente, o estudo prevê o recrutamento de pelo menos 100 pacientes. A expectativa é produzir células CAR-T para 81 participantes e concluir as fases I e II da pesquisa clínica. Até o momento, 75 pessoas já foram incluídas no protocolo, e 25 delas receberam a infusão das células modificadas, iniciando efetivamente o tratamento.
Outro avanço importante ocorreu recentemente com a entrada da terapia em fluxo prioritário de análise na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A medida pode acelerar o processo regulatório necessário para que o tratamento seja incorporado ao SUS futuramente.
Caso os resultados positivos sejam confirmados nas próximas etapas do estudo, o Brasil poderá se tornar um dos poucos países do mundo a oferecer uma terapia CAR-T de produção nacional dentro da rede pública de saúde, ampliando significativamente o acesso de pacientes a uma das mais sofisticadas tecnologias disponíveis atualmente para o combate ao câncer.
A expectativa dos pesquisadores é que os dados finais reforcem a eficácia e a segurança do tratamento, permitindo que a terapia seja disponibilizada para um número maior de pacientes nos próximos anos. Para especialistas da área, o avanço representa não apenas um marco científico, mas também uma oportunidade de democratizar o acesso a tratamentos de alta complexidade no país.




