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Remédio usado contra HIV será testado no Brasil para impedir transmissão de vírus associado à leucemia em bebês

Estudo inédito da Fiocruz e do Ministério da Saúde avaliará se o dolutegravir pode evitar a transmissão do HTLV-1 durante a gestação e o parto, abrindo caminho para uma estratégia pioneira no mundo
Por UrbNews
Atualizado há 20 horas
Tempo de leitura: 4 mins
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Estudo irá avaliar se o medicamento Dolutegravir, utilizado no tratamento do HIV, é capaz de impedir a transmissão do vírus HTLV-1 da mãe para o bebê, durante a gestação. Foto: Banco de imagens

Uma pesquisa inédita conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com o Ministério da Saúde pode representar um avanço histórico no combate ao HTLV-1, vírus que afeta milhões de pessoas no mundo e está associado a doenças graves, como leucemia, linfoma e distúrbios neurológicos.

O estudo irá avaliar se o medicamento Dolutegravir, amplamente utilizado no tratamento do HIV, é capaz de impedir a transmissão vertical do HTLV-1, ou seja, a passagem do vírus da mãe para o bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação. Caso a eficácia seja comprovada, será a primeira estratégia farmacológica do mundo voltada à prevenção da transmissão materno-infantil do vírus.

Batizado de PrevINIr HTLV-TV, o ensaio clínico será realizado inicialmente na Bahia, estado considerado uma das áreas com maior prevalência do vírus no Brasil. A pesquisa acompanhará mais de 500 gestantes infectadas pelo HTLV-1 e seus recém-nascidos ao longo de até 18 meses.

O que é o HTLV-1?

Pouco conhecido pela população, o HTLV-1 (Vírus Linfotrópico de Células T Humanas Tipo 1) é um retrovírus que infecta células do sistema imunológico. Embora muitas pessoas permaneçam assintomáticas durante toda a vida, parte dos infectados pode desenvolver doenças graves décadas após a contaminação.

Entre as principais complicações estão a leucemia/linfoma de células T do adulto, um tipo agressivo de câncer do sangue, e a mielopatia associada ao HTLV, doença neurológica progressiva que compromete movimentos e qualidade de vida. O vírus também pode aumentar a suscetibilidade a outras infecções.

O Brasil é considerado uma das maiores áreas endêmicas de HTLV-1 do planeta, com maior concentração de casos nas regiões Nordeste e Norte. Especialistas apontam que milhares de pessoas vivem com o vírus sem diagnóstico.

Como será o estudo

A pesquisa pretende preencher uma lacuna importante na prevenção da doença. Atualmente, gestantes diagnosticadas com HTLV-1 recebem orientação para não amamentar, já que o leite materno é a principal via de transmissão do vírus para os bebês. O Sistema Único de Saúde (SUS) fornece gratuitamente fórmulas infantis para essas crianças.

Mesmo com essa medida, cerca de 5% das transmissões continuam ocorrendo durante a gravidez ou no momento do parto. É justamente esse percentual que os pesquisadores pretendem reduzir.

No estudo, parte das gestantes receberá o Dolutegravir a partir da 24ª semana de gravidez até o parto. Após o nascimento, os bebês também utilizarão o medicamento por 28 dias. O grupo de controle seguirá apenas os protocolos atualmente recomendados. 

Além da eficácia, os pesquisadores irão avaliar aspectos como segurança, tolerabilidade, adesão ao tratamento, custo-benefício e viabilidade de incorporação da estratégia ao SUS. O projeto também prevê o desenvolvimento de protocolos para diagnóstico precoce da infecção em crianças expostas ao vírus.

Impacto para a saúde pública

Os pesquisadores destacam que a iniciativa está alinhada às metas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), que estabeleceram como objetivo a eliminação da transmissão vertical do HTLV-1 até 2030.

Se os resultados forem positivos, o Brasil poderá liderar uma mudança global no enfrentamento da doença, criando um protocolo inédito capaz de proteger milhares de crianças contra a infecção e suas consequências futuras.

A expectativa é que o estudo forneça evidências robustas para que a estratégia possa ser incorporada às políticas públicas de saúde, repetindo o sucesso obtido pelo país no combate à transmissão vertical do HIV, considerada uma referência internacional.

Para especialistas, a pesquisa representa não apenas uma esperança para famílias afetadas pelo HTLV-1, mas também um marco na busca por soluções para doenças negligenciadas que ainda recebem pouca atenção, apesar de seu potencial impacto sobre a saúde pública.

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