Uma pesquisa inédita conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com o Ministério da Saúde pode representar um avanço histórico no combate ao HTLV-1, vírus que afeta milhões de pessoas no mundo e está associado a doenças graves, como leucemia, linfoma e distúrbios neurológicos.
O estudo irá avaliar se o medicamento Dolutegravir, amplamente utilizado no tratamento do HIV, é capaz de impedir a transmissão vertical do HTLV-1, ou seja, a passagem do vírus da mãe para o bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação. Caso a eficácia seja comprovada, será a primeira estratégia farmacológica do mundo voltada à prevenção da transmissão materno-infantil do vírus.
Batizado de PrevINIr HTLV-TV, o ensaio clínico será realizado inicialmente na Bahia, estado considerado uma das áreas com maior prevalência do vírus no Brasil. A pesquisa acompanhará mais de 500 gestantes infectadas pelo HTLV-1 e seus recém-nascidos ao longo de até 18 meses.
O que é o HTLV-1?
Pouco conhecido pela população, o HTLV-1 (Vírus Linfotrópico de Células T Humanas Tipo 1) é um retrovírus que infecta células do sistema imunológico. Embora muitas pessoas permaneçam assintomáticas durante toda a vida, parte dos infectados pode desenvolver doenças graves décadas após a contaminação.
Entre as principais complicações estão a leucemia/linfoma de células T do adulto, um tipo agressivo de câncer do sangue, e a mielopatia associada ao HTLV, doença neurológica progressiva que compromete movimentos e qualidade de vida. O vírus também pode aumentar a suscetibilidade a outras infecções.
O Brasil é considerado uma das maiores áreas endêmicas de HTLV-1 do planeta, com maior concentração de casos nas regiões Nordeste e Norte. Especialistas apontam que milhares de pessoas vivem com o vírus sem diagnóstico.
Como será o estudo
A pesquisa pretende preencher uma lacuna importante na prevenção da doença. Atualmente, gestantes diagnosticadas com HTLV-1 recebem orientação para não amamentar, já que o leite materno é a principal via de transmissão do vírus para os bebês. O Sistema Único de Saúde (SUS) fornece gratuitamente fórmulas infantis para essas crianças.
Mesmo com essa medida, cerca de 5% das transmissões continuam ocorrendo durante a gravidez ou no momento do parto. É justamente esse percentual que os pesquisadores pretendem reduzir.
No estudo, parte das gestantes receberá o Dolutegravir a partir da 24ª semana de gravidez até o parto. Após o nascimento, os bebês também utilizarão o medicamento por 28 dias. O grupo de controle seguirá apenas os protocolos atualmente recomendados.
Além da eficácia, os pesquisadores irão avaliar aspectos como segurança, tolerabilidade, adesão ao tratamento, custo-benefício e viabilidade de incorporação da estratégia ao SUS. O projeto também prevê o desenvolvimento de protocolos para diagnóstico precoce da infecção em crianças expostas ao vírus.
Impacto para a saúde pública
Os pesquisadores destacam que a iniciativa está alinhada às metas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), que estabeleceram como objetivo a eliminação da transmissão vertical do HTLV-1 até 2030.
Se os resultados forem positivos, o Brasil poderá liderar uma mudança global no enfrentamento da doença, criando um protocolo inédito capaz de proteger milhares de crianças contra a infecção e suas consequências futuras.
A expectativa é que o estudo forneça evidências robustas para que a estratégia possa ser incorporada às políticas públicas de saúde, repetindo o sucesso obtido pelo país no combate à transmissão vertical do HIV, considerada uma referência internacional.
Para especialistas, a pesquisa representa não apenas uma esperança para famílias afetadas pelo HTLV-1, mas também um marco na busca por soluções para doenças negligenciadas que ainda recebem pouca atenção, apesar de seu potencial impacto sobre a saúde pública.




