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Ceará

Das fogueiras ao fogo das palavras: mulheres que fazem a XV Bienal do Livro Ceará

Por José Gabriel Herculino
Atualizado há 1 ano
Tempo de leitura: 5 mins
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A meta das mulheres que fazem a Bienal não é simplesmente “contar histórias”, mas “contar histórias a partir de personagens femininas”, segundo Maura Isidório. Foto: Jeny Sousa/Divulgação

O fogo consome tudo. Em uma das eras da sociedade, o fogo consumiu o corpo de mulheres sábias. Elas foram chamadas de bruxas e transformadas em cinzas, pois “sabiam demais”, como disse a escritora Francy Lima – que lançará um  livro nesta edição da Bienal. Mas apesar do caráter destrutivo do fogo, ele também é capaz de criar.

É ao redor do fogo que Maura Isidório guarda suas memórias mais afetivas. Nascida em Inhamuns, no interior do Ceará, a menina loira e de olhos castanhos criou afeição pelas fogueiras. Era ao redor delas que Maura se aquecia com familiares e amigos. Mas não só isso.

“A fogueira ajudava a iluminar as falas, as contações de histórias e os diálogos ao redor delas”, conta. A coordenadora da XV Bienal Internacional do Livro do Ceará não para por aí a sua saudação às fogueiras. Ela destaca que, apesar do fogo servir para queimar as plantações, era a partir desse processo que novas plantas poderiam crescer.

Nesse sentido, para que as novas escritoras sejam lidas, foi preciso que as primeiras se fizessem ler. E, apesar de ser um processo demorado – a primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras (ABL), Rachel de Queiroz, ingressou na organização em 1977, mais de 80 anos após a fundação -, os frutos finalmente estão sendo colhidos.

E os louros dessa colheita são diversos. É o que afirma Sarah Diva, uma das quatro curadoras da XV Internacional do Livro do Ceará ao falar sobre o tema “Das fogueiras ao fogo das palavras: mulheres, resistência e literatura” – que ela ajudou a escolher. 

“Embora a gente, em muitos momentos, tenha sido engolida pelo fogo, pela violência, pelo preconceito, pela discriminação; devolvemos ao mundo filhos, livros, amor, afeto, resistência e luta”, diz a professora, escritora e pesquisadora de literatura cearense.

A curadoria desta Bienal conta ainda com a escritora cearense Nina Rizzi, além da autora travesti Julie Trudruá Dorrico e da ativista pela diversidade Amara Moira. Todas mulheres.

Mulheres que curam

Agora, quando são finalmente ouvidas, com menos risco de irem para a fogueira, as mulheres que fazem a XV Bienal Internacional do Livro do Ceará levam para o evento não só seus saberes – que são muitos – mas também quem são.

Para Sarah Diva, ser uma das curadoras da Bienal é “consequência de uma vida dedicada ao ensino e ao ensino de literatura”. É o que ela sabe interseccionado por quem ela é.

Já para a coordenadora-geral, Maura Isidório, o que ela sabe é perpassado não só por quem ela é, mas também por quem ela foi. A menina de cabelos loiros e olhos castanhos que assistia o fogo estalar nas madeiras da fogueira com um olhar sensível. Só assim para se compreender “a diversidade e a pluralidade das necessidades do povo”, segundo ela. 

“Isso faz com que eu tenha um olhar com mais humanidade e afetividade para fazer essa coordenação. É o olhar de alguém que trilhou uma travessia de dificuldades, mas que acima de tudo acessou o livro-leitura e que consegue perceber novas possibilidades”, completa a coordenadora.

E as possibilidades são muitas. A prova está na programação da 15ª edição da Bienal do Livro do Ceará – que chegou um pouco depois do tradicional biênio. 

A XV Bienal Internacional do Livro do Ceará

De acordo com Maura Isidório, o evento tem uma agenda pensada por pessoas indígenas, representando a ancestralidade, a oralidade, a palavra escrita e a palavra falada. Além disso, há novidades, como a reunião entre literatura e moda.

“São 15 edições, então estamos realçando esse pertencimento, essa identidade do nosso povo com a moda mostrada por meio da literatura e de personagens femininos. Uma por meio das palavras, outra mais por meio das imagens”, explica Maura Isidório. Para ela, “literatura e moda é uma narrativa andante”.

A meta das mulheres que fazem a Bienal não é simplesmente “contar histórias”, mas “contar histórias a partir de personagens femininas”. Histórias, estas, regadas à diversidade. 

A curadora Sarah Diva também destaca a “maravilhosa” programação desta edição da Bienal, que conta com “autores de diversos gêneros, etnias e lugares”.  “A perspectiva é de um encontro extremamente plural, democrático, em que todas as identidades tenham lugar e que a gente possa ser muito feliz”, completa a escritora. (Confira a lista de atrações confirmadas abaixo).

Outra novidade, segundo Maura, é o “Espaço Palavra”, um local de aproximação de escritores e escritoras independentes, que estarão ao lado dos seus leitores e leitoras, e também conquistando novos apreciadores. (Mais detalhes sobre a programação você confere no site do evento).

Atrações confirmadas na Bienal Internacional do Livro do Ceará 2025

  • Ademario Ribeiro
  • Afonso Cruz (internacional)
  • Airton Souza
  • Aline Bei
  • Ana Miranda
  • Andrea del Fuego
  • Argentina Castro
  • Auritha Tabajara
  • Bruna Dantas Lobato (brasileira radicada nos Estados Unidos)
  • Bruna Karipuna
  • Bruna Santiago
  • Eliana Alves Cruz
  • Eliane Marques
  • Elisa Lucinda
  • Francy Baniwa
  • Geni Nuñez
  • Helena Vieira
  • Jarid Arraes
  • Jeferson Tenório
  • Lino Arruda
  • Luiza Romão
  • Micheline Veruschk
  • Mohamed Sarr
  • Socorro Acioli
  • Sony Ferseck
  • Stênio Gardel
  • Teresa Cárdenas 
  • Txai Surui
  • Verónica Valenttino

Serviço

  • Quando: 4 a 13 de abril, das 10h às 22h
  • Onde: Centro de Eventos do Ceará (Av. Washington Soares, 999 – Edson Queiroz)
  • Gratuito
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