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Quando a adedonha e a amarelinha são trocadas pelas telas: como cuidar da autoestima das crianças e adolescentes na era da internet

Para os especialistas, é fundamental que tanto a família quanto a escola reconheçam que a autoestima das crianças e adolescentes está em constante construção
Por Maria Eduarda Andrade
Atualizado há 7 meses
Tempo de leitura: 8 mins
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Quando a adedonha e a amarelinha são trocadas pelas telas: como cuidar da autoestima das crianças e adolescentes na era da internet. Foto: Reprodução/Pexels

*Escrito por Maria Eduarda Andrade e Viviane Ferreira.

Brincadeira de criança, como é bom! Mas o que fazer quando a diversão nas ruas é trocada por telas? Em 2023, 88% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos já utilizavam redes sociais no Brasil e 99% dos jovens de 15 a 17 anos estavam conectados, segundo dados coletados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pelo TIC Kids Online Brasil.

A hiperconectividade, no entanto, vem acompanhada de impactos silenciosos, como a queda da autoestima e o aumento da comparação com padrões inatingíveis. Segundo a psicóloga Natasha Barroca, após a pandemia, o uso de celulares e redes sociais foi intensificado, e muitas crianças e adolescentes passaram a se espelhar em influenciadores que exibem um estilo de vida editado e muitas vezes inatingível.

“A identidade deles já vai se formando baseada em algo inexistente. Isso vai construindo a sensação crônica de inadequação, de nunca ser bom o suficiente”, explica a profissional, destacando o aumento de casos de ansiedade, transtornos alimentares e uso de medicação entre os jovens.

Essa comparação constante pode ser ainda mais nociva entre as meninas. Um levantamento feito pela Universidade Pompeu Fabra e a Universidade Oberta de Catalunya revelou que as redes sociais afetam mais a saúde mental de meninas do que de meninos. A exposição contínua a imagens de corpos idealizados, maquiagem perfeita e vidas “instagramáveis” pode comprometer o bem-estar psicológico de forma profunda.

Foi o que sentiu Júlia, de 15 anos, que consome conteúdos sobre moda e maquiagem e admite que já se sentiu impactada negativamente. “Tem muitas meninas bonitas por aí, e às vezes isso gera uma certa comparação”, relata. Ela reconhece que as redes sociais influenciam na forma como se vê. Sua mãe, Kaila Pagels, tenta acompanhar de perto o que a filha acessa, mas admite que o maior desafio é “não ter completamente um controle sobre os algorítimos das redes sociais”.

Essa sensação de comparação excessiva é reforçada por campanhas publicitárias direcionadas ao público jovem nas redes. De acordo com matéria da ANDI – Comunicação e Direitos, muitas mães têm buscado conversar com suas filhas sobre a pressão estética imposta por esses conteúdos. A ideia é estimular senso crítico e desconstruir padrões irreais de beleza.

Como proteger e fortalecer

O acompanhamento ativo dos pais é essencial. Iago Fechine, pai da pequena Helena, de 9 anos, relata que a filha começou a acessar vídeos no YouTube desde muito nova. Embora ela goste mais de atividades físicas e brinquedos, ele já se preocupou ao vê-la assistindo vídeos voltados para um público mais adolescente. “Na correria do dia a dia, é fácil passar batido e relaxar nesse cuidado”, admite.

Para a psicóloga Natasha Barroca, o diálogo é fundamental. “É importante que os pais estejam juntos, que conversem, que mostrem o que é a vida real. A rede social não pode ser o único espelho”, ressalta.

Esse cuidado ativo também se estende a famílias cuja rotina já está inserida no ambiente digital de forma mais intensa, como é o caso da influenciadora mirim Catarina de Castro, de 10 anos. Catarina trabalha como modelo e cria conteúdo para as redes sociais com o apoio da mãe, Milena de Castro, que acompanha cada passo da filha com atenção redobrada.

Milena conta que a exposição sempre foi uma preocupação, mas que estabeleceu regras e limites claros desde o início. “Há um cuidado com o tipo de roupa que ela está. Também tem o tempo de produzir e postar, pois a Catarina tem a escola e depois da pandemia, muita coisa atrasou. Temos cuidado em não deixar ela muito adulta. Todo o conteúdo é pensado e filtrado por mim. A gente conversa muito sobre padrões irreais, sobre comentários e de certa forma, alguns conteúdos contribuem com a autoestima dela. Na verdade, a Catarina tem tanta autoestima que ela me incentiva”, relata. Para ela, mais do que restringir, é essencial ensinar a filha a lidar com o ambiente online com maturidade e senso crítico.

E os efeitos dessa supervisão cuidadosa aparecem na própria fala de Catarina. Quando questionada sobre como se sente sendo uma criança que produz conteúdo, ela responde com leveza: “Eu gosto de fazer vídeos, fico feliz quando tem muitos comentários e perguntas. Eu busco me divertir. Brinco, dou uma pausa dos conteúdos, até mesmo por conta da escola. Faço meus gibis. Me sinto eu mesma e respeito o meu perfil”. 

Catarina afirma que não se sente pressionada ou comparada e garante se sentir bem consigo mesma. Um cenário que, segundo especialistas, é resultado direto da atuação presente da família.

O papel das escolas

Na escola, outro espaço fundamental na formação da autoestima, os educadores também têm papel decisivo. Deisiane Souza, pedagoga com mais de seis anos de experiência com educação infantil, ressalta que o ambiente escolar precisa estar atento aos sinais que indicam queda de autoestima. “Mudanças bruscas de comportamento, isolamento, queda no rendimento escolar ou comentários depreciativos sobre a própria aparência são alguns dos alertas. O ideal é que os educadores estejam preparados para escutar, acolher e encaminhar essas crianças com sensibilidade”, aponta.

Deisiane também reforça a importância de inserir o tema do autocuidado e da valorização da diversidade corporal nos projetos pedagógicos. “Quando a escola abre espaço para conversas sobre autoestima e bem-estar, ela ajuda a formar crianças mais seguras e conscientes do seu valor para além da aparência. Isso precisa estar presente nas rodas de conversa, nos livros, nas atividades. Não é um tema paralelo, é central”, pontua.

Diante de um cenário em que a infância se conecta cada vez mais cedo às redes, o desafio é equilibrar o acesso ao mundo digital com proteção, diálogo e presença. Seja dentro de casa ou na sala de aula, construir autoestima sólida em crianças e adolescentes exige mais do que restringir telas, é preciso ensinar a enxergar além delas.

O que dizem as pesquisas?

Apesar dos esforços de muitas famílias e escolas, os impactos da exposição digital precoce seguem sendo motivo de alerta entre especialistas. Pesquisas recentes da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, apontam que o uso de cosméticos com compostos químicos, como parabenos e ftalatos, comuns em maquiagens e produtos capilares, têm antecipado o início da puberdade em meninas. A exposição a esses elementos durante a infância foi associada à maturação hormonal precoce, o que, segundo os especialistas, pode afetar não apenas o corpo, mas também a saúde emocional das jovens.

Essa aceleração do desenvolvimento físico, somada à constante exposição a padrões estéticos nas redes sociais, cria um terreno fértil para a insegurança e a insatisfação corporal. Dados de estudos brasileiros, como os divulgados pelo Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim (CEJAM) e pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), revelam uma forte ligação entre a baixa autoestima de adolescentes e o tempo excessivo gasto nas redes sociais. A busca por validação em curtidas e comentários acaba reforçando a dependência emocional da aprovação alheia e elevando os índices de ansiedade, depressão e cyberbullying – fenômeno que já atinge mais de 13% dos jovens entre 13 e 17 anos no Brasil.

A pressão estética, nesse contexto, aparece como um dos fatores mais agressivos, especialmente entre as meninas. A “dismorfia do filtro”, termo já discutido por profissionais de saúde mental, descreve o efeito psicológico de filtros que embelezam digitalmente rostos e corpos, distorcendo a autopercepção e alimentando padrões irreais de beleza. 

Essa realidade tem impulsionado, inclusive, o aumento na procura por procedimentos estéticos em adolescentes, uma tendência preocupante que, segundo especialistas, precisa ser enfrentada com informação, diálogo e regulação.

Para os especialistas, é fundamental que tanto a família quanto a escola reconheçam que a autoestima das crianças e adolescentes está em constante construção e que essa formação acontece, hoje, também no ambiente digital. O cuidado precisa ir além da vigilância. Requer escuta, acolhimento e educação emocional. Estimular o senso crítico, promover conversas sobre diversidade de corpos, autoestima e empatia são ferramentas que ajudam a blindar os jovens frente à avalanche de comparações, filtros e pressões.

Em um país onde 90% da população já reconhece a necessidade de psicólogos nas escolas, como revelou pesquisa do Porto Digital em 2025, fica evidente que a saúde emocional precisa ser prioridade. O desafio não é excluir as crianças da tecnologia, mas garantir que elas entrem nesse universo com suporte, consciência e afeto. Porque, no fim das contas, cuidar da autoestima dos jovens é também cuidar do futuro.

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