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Estreia de amanhã (22), ‘Ferrari’ apresenta trama intimista, mas com pouca profundidade

Por Paulo Roberto Maciel
Atualizado há 2 anos
Tempo de leitura: 7 mins
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Embora o lado empresarial da obra não seja dos melhores, o coração do filme está nos seus personagens principais e na interpretação de seus atores (Foto: Divulgação)

Em uma cena do filme “Ferrari” (2023), cinebiografia dirigida por Michael Mann, o personagem principal, Enzo Ferrari, protagonizado com segurança por Adam Driver, traz um monólogo sobre como sua percepção de mundo mudou após a Primeira Guerra Mundial. Ele perdeu dois grandes amigos em batalha, e após isso, decidiu que o melhor a se fazer era criar um muro em volta das suas emoções pessoais, para que ele não acabasse se tornando o próximo defunto aos olhos da sociedade italiana.

Este diálogo em específico reflete o coração da nova entrada no hall de cinebiografias, dessa vez, sobre o fundador da empresa automobilística que leva o nome do filme. O diretor afirmou que busca inspiração para esse longa desde 2002, e chega mais de 20 anos depois com uma produção boa o suficiente para entreter, mas nem tão profunda para compreender os arredores de Módena e sua devoção por carros e a vida.

Em 1957, Enzo Ferrari está em crise, e sua empresa também. A Ferrari está à beira da falência, e para sair dessa situação, o “Il Commendatore”, como é conhecido, apostará tudo na grande corrida Mille Miglia, que mostra ser a última grande chance de tirar o sonho da sua vida do abismo. 

Ao mesmo tempo, a vida pessoal do grande magnata das corridas não está nada bem. Ele está em luto pela morte recente de seu primeiro filho, ao mesmo tempo que reluta para reconhecer o seu outro, dessa vez fruto de um caso fora do casamento com sua esposa Laura Garello, interpretada magistralmente por Penélope Cruz.

Por mais que o filme tente mostrar como os acontecimentos da vida privada de Enzo refletem na sua persona pública, pouco disso é demonstrado ao longo de 2h10min de rodagem. Talvez a falta de ressonância entre essa “vida dupla” seja culpa do próprio Ferrari, que não pretendia deixar que assuntos pessoais superassem as vendas de seu carro nas manchetes dos jornais.

Neste ponto, a fotografia do filme é crucial em demonstrar o que Enzo sentia em determinada cena, mesmo que Adam Driver incorpore alguém cuja expressão facial não condiz com sua linguagem corporal. Quando visto por baixo, Ferrari é alguém forte, imponente, assim como seus carros, dono do mundo e comparado até mesmo por uma figura religiosa entre os amantes das corridas. Uma vez que a câmera sobe, ele se torna frágil, impotente, tomado por uma torrente de emoções que ele mesmo não consegue lidar.

Em uma cena memorável do longa, o personagem de Driver quase olha para o próprio público ao demonstrar, pela primeira vez, um sinal de fragilidade, além dos muros que ele próprio construiu. A câmera fecha em sua face e não se move por um segundo sequer, o que nos faz não pensar em nada enquanto vemos a figura de alguém que se considera acima do mundo, quebrar e se tornar tão frágil quanto as famosas pratarias italianas.

Em meio às trevas que corroem o Commendatore, a fotografia ainda lhe dá um certo charme com cenas muito claras e iluminadas quando o mostra em busca de recursos para conquistar a Mille Miglia. 

Em contraste, o sombrio e etéreo está reservado à sua esposa, e Penélope Cruz usa disso como sua principal força motriz ao longo da trama. Laura, sua personagem, fundou a Ferrari junto com o marido, mas viu seus planos de vida se desmancharem junto do seu casamento. Após a morte do filho, seu primogênito, se desgarrou de qualquer amarra que a prendia os bens materiais da mortalidade, e aceitou que muito do seu amor havia partido para os céus.

Penélope Cruz interpreta Laura Ferrari com a força de uma mãe em luto por seu filho, e de uma esposa que sabe seu lugar na empresa automobilística (Foto: Divulgação)

Se Driver se mostra calmo e recluso na maior parte do tempo, Cruz é a intensidade e a energia que move alguns dos melhores momentos do filme. Ela berra e grita tão forte quanto sua dor, mas ao mesmo tempo entende que, naquele contexto, ela é a real e grande responsável pelos caminhos da vida do marido, apesar de ele ainda lhe negar este direito.

Sem dúvidas, o embate entre os dois é o grande ponto alto do longa, junto de alguns outros aspectos. Entre eles, a trilha sonora, não apenas musicada, mas os efeitos de som criados ajudam a emergir o público no mundo das corridas e dos dramas familiares. Quando triste, a cena carrega um lamento sonoro que perdura durante todo o diálogo. Quando rápido e feroz, o ranger dos motores mostra a intensidade que os carros da Ferrari conseguem alcançar nas pistas.

Por falar em corridas, ironicamente, elas conseguem ser um dos pontos fracos desta obra. Michael Mann sabe dirigir cenas de ação, muito bem exemplificadas nos seus grandes filmes: “Fogo Contra Fogo (1995) e o excelente “Colateral” (2004). Mas aqui, parece que ele sentiu vergonha de mostrar os carros em competição, ou pior, de dar sagacidade às cenas de corrida.

Na tentativa de contraponto, o filme apresenta o personagem Alfonso de Portago, interpretado pelo brasileiro Gabriel Leone, que traz consigo a jovialidade e a energia que lembra Enzo Ferrari de seus tempos juvenis. Ele é despreocupado com a vida e sua mente está nas pistas e nos carros, algo que o próprio magnata sentia anteriormente, antes de buscar outros rumos para a sua carreira.

O brasileiro Gabriel Leone interpreta Afonso de Portago, aspirante a piloto que enxerga na Ferrari a oportunidade de impulsionar sua recém iniciada carreira (Foto: Divulgação)

Por mais que o personagem de Leone seja essencial para a trama, suas participações são rasas e por vezes mal aproveitadas, e deixa pouco espaço para o impacto que de Portago teve na Mille Miglia 1957. E com esse exemplo, os pontos negativos do filme se tornam mais presentes, e demonstram a pouca preparação que o roteiro propõe aos seus personagens e a fraca entrega narrativa que as ações dessas pessoas possuem para a trama principal.

Embora o lado empresarial da obra não seja dos melhores, o coração do filme está nos seus personagens principais e na interpretação de seus atores. Até mesmo o pequeno Piero Ferrari, ou Piero Lardi, segundo filho de Enzo, demonstra charme e confusão ao não saber direito se seu pai é quem ele acredita ser, já que não quer que ele tenha seu nome.

Em saldo final, “Ferrari” (2023) ainda é uma obra divertida para quem gosta do mundo automobilístico e, de quebra, de cinebiografias simples e que beiram à mediocridade. Se a força do filme não está no próprio nome da empresa, do contrário, está no ciclo familiar do homem por trás da marca, e das mulheres de sua vida que o lembram que ser um “deus”  da vida real não é uma tarefa fácil.

“Ferrari” (2023) chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 22 de fevereiro.

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