O movimento “tradwife” – expressão em inglês para “esposa tradicional” – tem ganhado cada vez mais visibilidade nas redes sociais. A tendência reúne mulheres que optam por se dedicar integralmente à casa e aos filhos, enquanto o parceiro assume o papel de provedor financeiro. Em paralelo, também chamam atenção as chamadas “esposas troféu”, que priorizam o cuidado com a própria imagem e o bem-estar pessoal.
O tema tem repercutido especialmente entre criadoras de conteúdo, que compartilham rotinas marcadas pelo preparo de refeições para o marido, cuidados em tempo integral com os filhos e a organização do lar. A estética também é parte desse universo: vestidos rodados, maquiagem clássica e cabelos impecavelmente arrumados ajudam a compor a imagem idealizada desse estilo de vida.
Mas, para além das telas, até que ponto essas representações encontram eco na vida real? Mulheres comuns se identificam com esse modelo ou ele permanece restrito ao imaginário das redes?
Para a jornalista e pesquisadora Marina Solón, é importante que todos os conteúdos sejam consumidos com olhar crítico. “Consumir criticamente esse tipo de conteúdo já vai fazer com que a mulher veja que o que ela vê ali talvez não seja tão replicável na realidade dela, e consiga ver essas perdas e ganhos, né? A mulher que fica em casa e ela cozinha aquele pão bonito e ela cuida dos filhos sempre lindos, o que ela tá perdendo da vida lá fora? Acho que vale esse pensamento. Ou se ela fica sempre ali cuidando, quem é que toma as decisões no mundo político por ela”, expõe Marina.
Nas ruas de Fortaleza, é possível encontrar as mais diversas realidades, pensamentos e convicções. Desde mulheres que gostam e preferem estar em casa, a mulheres que amam seus filhos e marido, mas sem deixar de lado suas carreiras e independência.
Segundo a pesquisadora, é fundamental considerar a realidade do país como um todo para compreender que esse estilo de vida não está ao alcance da maioria das mulheres, além de que pode envolver certos riscos.
“Quando a gente fala disso para o contexto brasileiro, a gente tem que pensar que o Brasil é essencialmente desigual economicamente, então quando a gente vai olhar para os marcadores sociais do Brasil, a gente vê que aqui a realidade é outra, no sentido de que muitas mulheres são chefes de família. […] Quando eu já subo um pouco nessa classe social e vou para mulheres que de fato têm uma condição social superior, a gente consegue falar que é acessível para elas diante dessa tirada de autonomia. A gente tem que lembrar que eu estou tirando a autonomia de mulheres em um contexto de uma grande incidência de violência doméstica”, explicou Marina.
