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Eleições 2024

Eleições 2024: Entenda a linha do tempo da política cearense e o que está em jogo na disputa PT E PL em Fortaleza

Por Bergson Araujo
Atualizado há 2 anos
Tempo de leitura: 14 mins
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André e Evandro são, em 2024, uma espécie de alegoria de Bolsonaro e Lula há dois anos. Mas, afinal, como chegamos aqui? (Arte: Bergson Araujo, Urbnews / Fotos: Agência Brasil e Urbnews)

A um dia da eleição para prefeito de Fortaleza, André Fernandes (PL) e Evandro Leitão (PT), candidatos que avançaram para o segundo turno, encontram-se tecnicamente empatados em algumas pesquisas. Em uma disputa acirrada, a eleição municipal da quarta maior capital do país ganhou destaque nacional. 

De um lado, o representante de um ex-presidente. Do outro, um apadrinhado pelo atual líder do Executivo nacional. André e Evandro são, em 2024, uma espécie de alegoria de Bolsonaro e Lula há dois anos. Mas, afinal, como chegamos aqui?

No dia 6 de outubro de 2022, Lula (PT) foi eleito para seu terceiro governo e Bolsonaro (PL) tornou-se o primeiro presidente do país a não se reeleger. Uma vitória apertada, um Brasil separado. Aquele ano cravaria uma polarização que se arrasta por anos e influencia diretamente a dinâmica política fortalezense, principalmente pela ação desses dois padrinhos políticos.

Para compreender a política de Fortaleza em 2022 e 2024, é preciso voltar um pouco mais no tempo e entender o surgimento de nomes que têm posições fundamentais no cenário cearense atualmente, bem como eles se relacionaram até agora nesse jogo de cadeiras.

Discorrendo os fatos, mostrando o surgimento de cada ator político e suas alianças – em ordem cronológica que inicia na década de 80 -, essa reportagem entrevistou o presidente do CDE/OAB/CE, Fernandes Neto, que é também Doutor em Direito Constitucional e Teoria Política, professor, autor de obras jurídicas e palestrante.

1986 | Estopim do Grupo Ferreira Gomes

Na década de 1980, após todo o processo histórico da chegada da família Ferreira Gomes de Portugal a Sobral no século XIX e sua dominação política na região – que se tornou intrínseca à cidade -, o grupo teve um crescimento significativo.

O pontapé para a capilaridade da família e a expansão da sua influência política pelo Ceará veio em 1986, após convite feito pelo então governador Tasso Jereissati para que Ciro Gomes, em seu segundo mandato como deputado estadual, se tornasse líder do governo estadual na Assembleia Legislativa do Ceará. Ambos integravam o PMDB.

“O período do início do destaque da família Ferreira Gomes, a iniciar pelo Ciro, foi pelas mãos do Tasso Jereissati, que enxergou no deputado, ainda bem novo, uma liderança e uma pessoa especial, com o dom especial para política”, comenta Fernandes Neto.

Em 1988, Tasso migra para o PSDB. Entra no cenário estadual Cid Gomes, que era filiado ao PMDB e que também muda para o PSDB no mesmo ano – mudança que também foi feita por Ciro, em 1990. 

Cid foi eleito deputado estadual em 1990 e convidado por Tasso para ser coordenador político regional no Ceará. Em 1991 se tornou líder do PSDB na Assembleia Legislativa do Ceará.

Ao tempo que Cid era eleito deputado estadual, Ciro se tornava prefeito de Fortaleza, ambos arrastados pelo destaque dado por Tasso. Ciro deixou o Executivo municipal após 15 meses de mandato e se candidatou ao governo do estado, em 1990, sendo eleito no primeiro turno.

Entre 1° de janeiro de 1997 e 1° de janeiro de 2005, após seus mandatos como deputado estadual, Cid esteve como prefeito de Sobral, já dentro de uma nova legenda, o Partido Popular Socialista (PPS). 

Já Ciro ficou como governador até 1994, quando foi convidado por Itamar Franco para ser ministro da Fazenda, cargo que ocupou até 1995. Assim como o irmão, Ciro migrou para o PPS em 1997. Entre 2003 e 2006, foi ministro da Integração Nacional do governo Lula.

Enquanto isso, Tasso, após se tornar presidente nacional do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) em 1994, foi eleito para o seu terceiro mandato como governador do Ceará, cargo que ocupou até 2002, quando renunciou para disputar o Senado.

O Governo do Estado do Ceará, após a renúncia, foi assumido em 2022 por Beni Veras, vice-governador, também do PSDB. A eleição seguinte elegeu Lúcio Alcântara, também do PSDB, que ficou no cargo até 2007. O ano ficou marcado pelo surgimento de uma parceria que se arrastou até os tempos atuais.

2006 |  Parceira PT e Ferreira Gomes derruba PSDB

Em 2004, ganha visibilidade uma nova personagem na história política de Fortaleza. Luizianne Lins (PT) venceu a eleição daquele ano e se tornou a segunda prefeita da capital cearense. O desempenho chamou a atenção dos Gomes e projetou uma aliança para 2006.

“A aproximação da família Ferreira Gomes ao PT, ao PT histórico no caso, foi depois da inesperada vitória da prefeita da Luizianne Lins nas eleições municipais em Fortaleza […] contrariando todos os prognósticos […] então, nesse sentido, a Luizianne ganhou contra tudo e contra todos nas eleições”, analisa Fernandes Neto.

Em 2005, Cid e Ciro mudam de legenda e migram do PPS para o Partido Socialista Brasileiro (PSB). Com essa movimentação, e a estrutura política sendo alinhada ao progressismo em âmbitos nacional, estadual e municipal, os irmãos lançam uma parceria contra o antigo partido, o PSDB.

O pacto PT e família é firmado com o lançamento de Cid Gomes e o vice Francisco Pinheiro (PT)  para o Governo do Ceará, nas eleições de 2006. O então candidato recebeu apoio da prefeita da época e do presidente Lula. Cid foi eleito e, em 2008, apoia a reeleição de Luizianne, que logra êxito.

Em 2010, Cid lançou candidatura à reeleição, sendo eleito para a direção do Executivo estadual até 2015. Nesse meio tempo, mais especificamente em 2013, o PSB, com o nome de Roberto Cláudio, vence a disputa pela Prefeitura de Fortaleza.

A eleição daquele ano simbolizou o rompimento do acordo silencioso entre o poder municipal e o estadual, já que Luizianne defendia que seu sucessor fosse o então secretário da Educação, Elmano de Freitas; enquanto Cid apoiava o nome de Roberto para o cargo. 

Essa pode ser considerada a primeira rusga entre a família e o PT, mas que não tomou proporções tão latentes quanto as que viriam nos futuros pleitos no estado.

No mesmo ano, os irmãos Gomes mudam de partido, mais uma vez. Saindo do PSB, Ciro e Cid, ao lado do novo integrante, Roberto Cláudio, vão para o PROS, onde o governador terminou seu mandato.

“Uma das características dos Ferreira Gomes foi a sua desvinculação partidária ao longo do processo. Contrariamente a outras lideranças políticas, os Ferreira Gomes nunca procuraram ter para si, no Brasil e aqui especialmente, um partido para dominar”, explica Fernandes.

2014 | Família Gomes e PDT reforçam aliança com PT

Apesar do rompimento entre Luizianne e Cid, os irmãos apoiaram a candidatura de Camilo Santana (PT) para o Governo do Ceará nas eleições de 2014. Em mais uma dança de cadeiras, ainda naquele mesmo ano, os irmãos e Roberto Cláudio se mudam para o Partido Democrático Trabalhista (PDT). 

“Contra todos os prognósticos razoáveis da liderança, o Cid Gomes tirou da cartola o nome do seu secretário, Camilo Santana, que inclusive iniciou nos últimos lugares das pesquisas e aí ganhou a eleição no segundo turno”, conta o advogado.

Além do apoio da família, Camilo contou com amplo apoio do prefeito de Fortaleza. 

“Roberto Cláudio nasceu vinculado aos Ferreira Gomes, nasceu para política vinculada aos Ferreira Gomes, como deputado estadual. Um quadro importante, uma pessoa muito capacitada, qualificada tecnicamente e politicamente e apoiou em 2014, Camilo Santana, enquanto prefeito eleito de Fortaleza”, explica Neto.

O apoio foi retribuído por Camilo em 2016, quando Roberto se candidatou à reeleição pelo PDT. “O próprio Camilo Santana já era mais presente do que o próprio Cid Gomes nas eleições municipais”, conta Fernandes.

Ainda de acordo com o especialista político, nesse momento também surge outra tradição que tem durado anos: “o deputado estadual presidente da Assembleia, seria o candidato natural à prefeita de Fortaleza, como se deu depois posteriormente com Sarto e como está se dando agora com Evandro Leitão [que disputa as eleições 2024]”.

2018 | O segundo racha dos irmãos e o PT

“Havia também, paralelamente à questão do Ceará, uma integração. O Ciro Gomes fez, por algumas vezes, parte da base do governo Lula, inclusive no início do governo Dilma, mas sempre houve uma luta por espaço”, explica o especialista sobre a relação do ex-governador com o PT.

Nas eleições de 2018, os embates entre Lula e Ciro, naquele ano no PDT, iniciaram. O pedetista, que era candidato à presidência, depositou no petista a culpa por não ter conseguido se eleger.

Fernandes explica que o ex-governador, como nome nacional, não conseguiu ser candidato pelo PT, apesar de estar melhor avaliado que Haddad e as pesquisas indicarem que ele ganharia do Bolsonaro e dos outros candidatos. 

“Lula estava inelegível e, além de vetar, trabalhou para que Ciro não tivesse o apoio de alguns partidos. Então, começou daí, veio daí, a briga última, que teria consequências futuras em todas as áreas do poder, em todas as eleições, com relação a eleição, a relação PT-PDT”, analisa o advogado.

2022 no Ceará | O terceiro racha, separação da família e mais tensões 

Em 2020, um novo nome entrou em cena. Seguindo a tradição já citada de um presidente da Alace se candidatar à Prefeitura de Fortaleza, o PDT lançou José Sarto, que faria oposição à ex-prefeita Luizianne Lins (PT).

Sarto tinha como vice Élcio Batista (PSB). Naquele ano, o PDT fez parte da coligação “Fortaleza Cada Vez Melhor”, que englobava, além das legendas dos candidatos, PP,  PTB, PL, PSD, Cidadania, REDE, DEM e PSDB.

Roberto Cláudio colocou à prova sua influência ao candidatar o deputado como seu sucessor e teve resposta positiva após a eleição declarar Sarto como o novo prefeito de Fortaleza. Com isso, RC estava com um caminho trilhado para disputar o Palácio da Abolição no pleito seguinte.

Apesar do rompimento de Cid com Luizianne e Ciro com Lula, havia uma certa expectativa que a sucessão de Camilo Santana seria tranquila e acordada entre os Ferreira Gomes e o PT, como estava acontecendo há mais de 10 anos.

Mas o grupo, que já tinha muita influência no estado, acabou criando nomes também muito influentes e não chegou a um denominador comum sobre a sucessão de Camilo. O então governador apoiava o nome de sua vice, Izolda Cela (PDT), mas Ciro Gomes queria que Roberto fosse o escolhido.

Ali iniciava uma discussão que duraria meses, resultando em expulsões e uma debandada histórica de filiados do PDT. Cid também defendia o nome da vice-governadora, fazendo assim oposição ao seu irmão.

Foi colocado à prova, naquele momento, a influência de Camilo contra a de Roberto. O PDT escolheu para a disputa o nome de RC; em paralelo a isso, consolidando o rompimento, o PT anunciou o nome de Elmano – que já havia participado de outras eleições majoritárias, mas nunca conseguiu êxito.

Assim como Elmano, outro personagem já conhecido também disputava aquele pleito de forma inédita. O ex-deputado Capitão Wagner foi candidato pelo União Brasil, partido que entrou em 2022 após sair do PROS.

O político de direita liderava as pesquisas de inteção de voto daquele ano, mas o resultado trouxe uma vitória inesperada a Elmano logo em priemiro turno. Apesar da derrota, o nome de Capitão já estava consagrado como uma das principais vozes da oposição na política local.

Elmano de Freitas é eleito governador, ao lado de Jade Romero (MDB), e toma posse em 2023. O resultado não trouxe apenas a vitória ao petista, mas a separação dos irmãos Gomes.

2022 no Brasil | A eleição que cravaria PT e PL como extremos de uma polarização

Por 50,90% a 49,10%, Lula venceu Jair Bolsonaro em 2022 no segundo turno da disputa pela Presidência da República. O resultado apertado é reflexo de umas das eleições mais polarizadas da história do país.

Intensa em muitos sentidos, a disputa transformou o país continental em um espaço fragmentado em dois pólos e consagrava Bolsonaro como um expoente de direita, assim como o Lula na esquerda.

Tão extremo o clima do pleito daquele ano, que Ciro e Lula, que estavam divergentes desde 2018, se ‘aproximaram’ novamente. Isso após o petista ir para o segundo turno e o PDT declarar apoio, sendo esse apoio aceito por Ciro.

2024 | Os escombros e as novas estruturas políticas

Após as rupturas e rompimentos de acordos ao longo dos anos, era chegada a hora de mais um pleito em Fortaleza. Agora, com os irmãos Gomes separados e novos nomes influentes, inúmeras eram as expectativas.

Em 2022, após a rachadura dos irmãos, Cid e inúmeros apoiadores saíram do PDT. Entre eles, um nome iria para o PT  e seria a aposta do partido para a disputa. Também seguindo a tradição dos presidentes da Alece, Evandro Leitão é lançado como o apadrinhado de Camilo, Elmano e Lula à Prefeitura.

Sarto foi a escolha do PDT e disputou a reeleição sendo apoiado por Ciro. Capitão voltou para mais uma disputa, mas sem padrinhos políticos, como gostava de salientar durante toda sua campanha.

Além dos partidos de esquerda e centro-esquerda, um nome de direita foi lançado pelo PL. O deputado André Fernandes entra no páreo afirmando ser o candidato da mudança e que mudaria todo o “sistema”. O político recebeu o apadrinhamento do ex-presidente Bolsonaro.

Capitão, Sarto e os demais candidatos perderam no primeiro turno. O segundo tem sido disputado, desde então, por Evandro e André. Assim como no cenário nacional em 2022, o embate entre PT e PL tem gerado uma divergência acentuada na capital cearense.

As últimas pesquisas mostram um cenário apertado e de, muitas vezes, empate. 

A pouca diferença de pontos percentuais dos dois pode ser explicada também pelos apoios que os adversários agregaram. Após a derrota de Sarto, Roberto Cláudio decidiu declarar apoio a André. Assim como Capitão Wagner, que mesmo após críticas durante debates e campanhas, resolveu apoiar o candidato do PL.

Especialistas viram essa movimentação como uma espécie de reação à influência que Camilo tem exercido no estado, principalmente após eleger um governador em primeiro turno.

“Não há dúvida que o apoio do Capitão Wagner, que de fato já era oposição ao Camilo Santana, mas principalmente o apoio do Roberto Cláudio ao candidato André Fernandes, é um apoio de oposição ao ‘Camilismo’, de resistência ao ‘Camilismo’, exatamente da resistência à hegemonia política que o ‘Camilismo’ tem realizado no estado do Ceará”, analisa o advogado.

O especialista analisa ainda que para entender o futuro do cenário político no estado, e principalmente na capital, é necessário ter uma visão para além de partidos.

“Essas eleições de 2024 têm desenhado um novo quadro de poder no estado do Ceará. E aí você não pode, talvez, falar em termos de partido, porque o próprio partido PDT está dividido no apoio ao André Fernandes”, comenta o especialista.

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