O dólar está em queda nesta quinta-feira (25), com investidores repercutindo novos dados de inflação do Brasil e dos Estados Unidos. As atenções também estão voltadas para o BC (Banco Central), que divulgou mais cedo projeções atualizadas para indicadores econômicos por meio do Relatório de Política Monetária.
Às 14h21, a moeda tinha perdas de 0,43%, cotada a R$ 5,177. Já a Bolsa tinha forte alta de 1,05%, a 172.304 pontos, com os holofotes do noticiário corporativo direcionados a Braskem e Americanas.
O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou que a inflação medida pelo IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo-15), uma prévia do dado oficial, desacelerou a 0,41% em junho, após marcar 0,62% em maio.
Os números vieram abaixo da mediana das projeções do mercado financeiro, que era de 0,44%, conforme a agência Bloomberg. Ainda assim, é o maior resultado para junho em quatro anos, desde 2022 (0,69%).
No acumulado de 12 meses, o IPCA-15 acelerou a 4,8% até junho, após marcar 4,64% até maio.
O grupo alimentação e bebidas subiu menos neste mês, mas seguiu como principal fonte de pressão sobre o índice. Individualmente, a carestia da energia elétrica também impactou o resultado.
O resultado, segundo André Valério, economista sênior do Inter, sugere que o processo inflacionário caminha para normalização após o choque energético causado pela guerra no Oriente Médio, que encareceu os preços de combustíveis e alimentos em todo o mundo.
“Com o arrefecimento da inflação de combustíveis e início de desaceleração da inflação de alimentos, podemos ver a continuidade dessa normalização nas próximas leituras, pré-requisito para a continuidade do ciclo de calibração da Selic. Ainda assim, o ambiente é altamente incerto”, afirma.
Ele cita incertezas à frente, como o fenômeno climático El Niño, que poderá pressionar a inflação de alimentos no quarto trimestre, e os efeitos do câmbio em R$ 5,20, patamar ao qual a moeda brasileira retornou na véspera.
“De toda forma, o resultado sugere que o impacto da guerra não foi suficiente para reiniciar o processo inflacionário. Mantemos nossa expectativa de novo corte na Selic na reunião de agosto e continuidade da cautela na condução da política monetária com as decisões sendo tomadas reunião a reunião.”
A Selic foi cortada em 0,25 ponto percentual na semana passada, a 14,25% ao ano, em decisão que criou ruídos no mercado. Ao justificar o corte, o Copom (Comitê de Política Monetária) alongou, na prática, o prazo para o cumprimento da meta de inflação do último trimestre de 2027 para o primeiro de 2028.
O alvo para a inflação é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo.
Para muitos analistas, o discurso do BC demonstrou certa leniência com a inflação. Galípolo, em entrevista coletiva nesta manhã, reconheceu que o comitê pode ter errado ao tentar “explicar demais” o corte, mas negou falta de transparência no comunicado sobre a decisão.
“A imprensa especializada apontou com razão que o problema foi tentar explicar demais do que falta de transparência”, afirmou. Ainda assim, disse ele, “você pode ser mais claro no comunicado sem precisar comunicar o que você vai fazer”.
Ele reforçou que nenhum banco central no mundo tem estabelecido o chamado “forward guidance”, isto é, a indicação sobre quais serão as futuras decisões de política monetária. O mercado está “no direito de pedir essas informações”, mas o BC “vai preservar o seu direito de não dar essa informação quando achar que não interessa”, afirmou.
“Não porque estamos escondendo o que vamos fazer, mas porque a decisão será tomada daqui 40 dias e o ambiente está incerto.”
Já Paulo Pichetti, diretor de Política Monetária, afirmou que, mesmo se o BC tivesse “dobrado ou triplicado” a Selic, “não iríamos abrir o Estreito de Hormuz ou impedir o El Niño de nos visitar”. Reagir aos choques imediatos causaria “efeitos de volatilidade”, resumiu ele.
Os juros futuros de curto e médio prazo estão, em resposta, na terceira sessão consecutiva de queda. A taxa do DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2028 estava em 14,21%, em baixa de 0,1 ponto percentual. Já a ponta longa da curva mostra elevação, com a taxa do DI para janeiro de 2035 em 14,24%, alta de 0,03 ponto.
No exterior, dados de inflação dos Estados Unidos são destaque. O índice PCE, o preferido do Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) para balizar as decisões de juros, avançou 4,1% nos 12 meses até maio, no maior aumento desde abril de 2023.
O dado fez o mercado recalibrar as expectativas sobre a política monetária americana. A expectativa agora é que o Fed não aumente os juros na próxima reunião, mas em setembro.
O Fed tem como meta uma variação de 2% do PCE ao longo de 12 meses, meta que não é atingida há mais de cinco anos e que o chair do Fed, Kevin Warsh, em sua primeira reunião neste mês, afirmou que será cumprida.
Operadores e analistas interpretaram essa declaração e outras sobre a necessidade de reduzir a inflação como um fator que aumenta as chances de aumentos da taxa de juros no curto prazo.
“O relatório do PCE de maio é um lembrete de que a batalha contra a inflação ainda não acabou, mas também não é um sinal claro de que as pressões subjacentes sobre os preços estejam voltando a subir”, escreveu Martin Beck, economista-chefe da Public Policy Holding Company (PPHC), em uma nota, acrescentando que o núcleo do PCE não acelerou em relação ao mês anterior.
Juros mais altos nos Estados Unidos são uma má notícia para investimentos em todo o mundo. Quanto maior a taxa, pior para ativos emergentes, já que a renda fixa norte-americana é considerada um investimento praticamente livre de risco e, com os Fed Funds em alta, exibe retorno atrativo.
Texto por Folhapress.




